domingo, 27 de novembro de 2016

G. D. Porto d'Ave - 38º Aniversário



DEUS quer, o Homem sonha, a Obra nasce.


     Aos 27 de Novembro de 1978, o Grupo Desportivo de Porto D’Ave torna-se o mais jovem clube da Associação de Futebol de Braga. Este foi um grande passo na vida da colectividade, mas não foi aqui que tudo começou. O Porto D’Ave nesta altura já era grande. Antes desta data, ninguém da nossa freguesia ficava em casa nos dias de jogo nos torneios que se realizavam em Castelões e Brunhais. Lembro-me de grandes tardes e manhãs de futebol nessa saudosa década de setenta como se fossem ontem. Na abertura dum torneio contra uma “potência” do futebol daquela altura, o Serafão, em que vencemos por 5 a 0. Também num jogo em Castelões contra o Gonça, quando antes do intervalo o resultado já era favorável aos “nossos” por 2 a 0, com ambos os golos apontados por Tuxa (da D. Laura) e de repente um “tornado” protagonizado pelos adeptos de ambas equipas impediu que o jogo chegasse ao fim. (também aqui ninguém nos vencia!!!). Aquela final contra o Travassos, em que vencemos por 2 a 1, sendo este o único golo sofrido em toda a competição. O Guardião quase imbatível desse torneio era o senhor Carlos Rufino, naquela altura “Caló”.

    Sempre que olho para a taça de campeões desse torneio, recordo todas as emoções que sentia. Haviam ainda poucos carros na freguesia, mas para acompanhar o Porto d'Ave as caravanas eram sempre enormes. As camionetas também eram necessárias para levar todos os adeptos e os que iam na carroça eram sempre os mais ruidosos. Havia duas bandeiras enormes com quadrados pequenos e mal feitos que estavam sempre presentes e o apoio à equipa era feito a cantar as lindas canções da nossa terra. O Porto D’Ave não era ainda federado, mas já era muito grande e eu, ainda criança, olhava para os rapazes das outras freguesias cheio de vaidade, pois eu era de Porto d’Ave e eles não. Já se cultivava o orgulho Portodavense.

     Neste tempo, contavam-se histórias do passado que me fascinavam e me fazia compreender que a grandiosidade do Porto d’Ave já vinha de longe. Falavam de jogos em que iam a pé e descalços, e só calçavam as botas, quem as tinha, para jogar. O resultado era sempre o mesmo; os “nossos” ganhavam. Às vezes também perdiam, mas esses episódios contavam-se em dois segundos, as vitórias é que importava recordar repetidamente sem que nada ficasse esquecido.

     Enquanto escrevo estas linhas, recordo imagens de homens que já não estão cá a festejar os golos e as vitórias. Quando a taça era nossa, e era quase sempre, enchia-se de champanhe e todos bebiam por ela. A festa durava até ao dia seguinte. Apesar de se repetirem em cada torneio, aqueles momentos eram únicos. Enquanto a festa durava, estavam esquecidas as amarguras da vida que afectavam grande parte da população, pois eram tempos difíceis.

     Uma das razões que tornavam o Porto D’Ave mais vencedor que os adversários, era o facto de nessa altura já treinar todos dias, pois não havia um final de tarde em que a bola não saltasse no terreiro dos divertimentos até ao anoitecer. Todos estavam convocados, e depois dum dia de trabalho árduo, a ninguém faltava energia para dar o litro atrás da bola.

     E foi graças a todo este entusiasmo que um grupo de homens da nossa terra reuniu para passar à fase seguinte, e assim nasceu o Grupo Desportivo de Porto D’Ave. Presto a minha homenagem e deixo aqui os meus agradecimentos enquanto Portodavense, a estes homens e muitos outros que, sem que o seu nome saísse do anonimato, foram imprescindíveis na criação do nosso clube. Penso que todos estes homens, há 
quase quarentaanos, já sabiam que estavam a criar este grande clube que tanto nos orgulha. Foram ambiciosos na aquisição dos terrenos que com dificuldade lá se foram pagando e que tão importantes foram para que se construíssem aquelas magnificas instalações. Os primeiros anos foram os mais difíceis, mas a união era tal que todas as barreiras foram ultrapassadas.

     Os jogadores do Porto D’Ave passaram a ser os ídolos das crianças da escola. No recreio, quando jogávamos à bola, marcávamos golos à Guilherme e à Gito, dávamos cabeçadas à Quim Moreira, fazíamos fintas 
à Pião, carrinhos à Firo, passes à Santos, caneladas à Araújo, defesas à Chico Fininho, etc. etc..

     Há uma história que se passou na minha sala de aula que demonstra o significado que o Porto D’Ave tinha para as crianças. Um dia a professora D. Graça mandou-nos fazer uma redacção sobre o que tínhamos feito no último Domingo. Cerca de metade da turma, sobretudo os rapazes, escreveu sobre a difícil vitória no complicado campo do Cav
ez, em que houve invasão de campo quando o árbitro validou um golo de Nano, um chapelão ao guardião adversário. O resultado foi 1 a 2 a nosso favor. A professora ao corrigir os nossos trabalhos, não acreditava que tantos miúdos de nove anos tivessem acompanhado o nosso clube tão longe e achou que tínhamos copiado o tema. Com os desenhos e os trabalhos manuais passava-se a mesma coisa; tanto a tinta da china, como em barro, nos têxteis ou em metal, tudo dava para fazer o emblema do Porto D’Ave.

     Nos primeiros anos a equipa de futebol sénior era a única a competir em toda a colectividade, mas com o passar dos anos foram-se reunindo esforços para que fosse possível ter escalões de formação, começando por uma camada de Juniores. Como os resultados eram positivos, outros escalões se foram acrescentando ao ponto a que chegamos há mais de uma dúzia de anos em que nos orgulhamos de ter todos escalões de formação onde também já escrevemos muitas páginas douradas.

     Hoje, com quase duas centenas de jogadores de várias idades, o nosso clube já não é só de Porto D’Ave, pois são muitos os sócios e adeptos das freguesias vizinhas. Possuímos um dos melhores parques desportivos de todos os clubes do futebol distrital bracarense, pois não houve até hoje uma direcção que não o melhorasse. Fomos brindados recentemente com o tão desejado “tapete verde”, mas sonhamos ainda com um segundo campo e um pavilhão gimnodesportivo para continuarmos a somar êxitos nesta caminhada. Sem grandes saltos, passo a passo, o Porto d’Ave nunca parou de crescer, tanto no património como no plano desportivo, e assim irá continuar.

     A grandiosidade do Grupo Desportivo de Porto d’Ave é hoje reconhecida por todos e não nos intimidamos quando temos que ombrear com clubes que representam nomes de cidades e sedes de concelho. Isto só é possível, porque a nossa camisola tornou-se de tal forma honrada, que muitos jogadores preferem vesti-la abdicando por vezes de avultados salários oferecidos por clubes que outrora tiveram nomes mais sonantes que o nosso. Também a nossa massa associativa tem características ímpares no apoio à equipa e, quando há mobilização para jogos mais importantes, os adeptos do Porto d’Ave tornam-se os melhores do mundo.

     O Porto d’Ave nasceu para ser grande, e já muito foi feito, mas há ainda muito a fazer para se tornar ainda maior e todos temos o dever de continuar o trabalho iniciado pelos nossos pais e avós, que criaram este clube e o ajudaram a crescer. A todos estes homens que deram os primeiros e mais difíceis passos, é nosso dever demonstrar gratidão, mas principalmente aqueles de quem o nome não consta em nenhuma acta e muito menos numa lápide. Que todos que fazem parte do nosso emblema e os que a ele se juntarem no futuro, saibam que em cada palmo daquele recinto estão lágrimas e suor de homens, alguns de idade bastante avançada e debilidade física, mas quando do Porto d'Ave se tratava, conseguiam inventar forças para trabalhar com o intuito apenas de ver o nome do clube do seu coração cada vez maior. Sem esses, o Porto d'Ave seria muito mais pobre, e a maior homenagem que lhes podemos fazer, é seguir o seu exemplo e nunca deixar de os recordar. A eles dedico estas palavras.
(Tó de Porto d'Ave)

   

"Enquanto os rios corram, os montes façam sombra e no céu haja estrelas, deve durar a memória do bem recebido na mente do homem grato."

(Virgílio)

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Ida à Romaria






Ida à Romaria
(1ª Parte)


   É graças à minha Jacinta que tenho esta história para vos contar. Bastava que ela não fosse mais teimosa que a chuva 'molha-tolos' e eu tinha ficado no conforto da nossa casinha a envelhecer mais um daqueles dias igual a tantos outros. Mas depois do raio da mulher tanto me chatear a mioleira, porque quando uma coisa se mete naquela cabeça não há remédio que lhe faça mudar as ideias, lá me cansei de a ouvir até que respondi:
   - Pronto Jacinta, amanhã metêmo-nos na carreira e vamos à novena de Nossa Senhora do Porto d'Ave.
   E ainda bem que ela insistiu, porque são dias como este que fazem valer a pena vir a este mundo!       Na manhã seguinte, levantámo-nos tão cedo que até fomos nós que acordamos o galo. Tomamos a nossa cevada e depois de enchermos pias e bebedouros da bicharada, lá nos fomos preparar. Lavamos as partes de cima; banho por inteiro já a gente tinha tomado no Sábado; e de seguida vesti o meu fato domingueiro. A Jacinta quando me viu até disse que não era preciso tanto asseio que aquilo não era casamento nem baptizado, mas nestas coisas de dar um passeio, que não é um luxo que a gente faça assim com tanta frequência, eu cá gosto de o fazer com algum primor! Fiz orelhas moucas às palavras da mulher e ainda fiquei mais uns segundos na frente do espelho a ajeitar bem os suspensórios, de modo a que uma fivela não ficasse mais subida que a outra. Depois de conferirmos duas vezes que tudo ficava bem trancadinho, tirei da algibeira o meu relógio de prata que só uso em dias importantes; trata-se duma relíquia de família que foi do meu avô e depois do meu pai que Deus os tenha ambos num santo lugar, agora é meu e um dia será do meu Zé Maria por ser ele o meu rapaz mais velho. Bem, mas isso será só no dia em Deus me chamar p'ró outro lado da vida e, tirando reumático que volta e meia me aflige e só com um bom bagaço alívio tamanho padecimento, sou homem com boa saúde e se Nossa senhora do Porto d'Ave continuar a velar por mim, ainda tenho muitos Invernos para penar neste mundo. 
   Carreguei no botão que faz saltar a tampa, olhei para os ponteiros e vi que já eram quase sete e um quarto. Como a carreira das sete passa por volta das sete e meia, disse:
   - Jacinta, bora lá descer p'rá paragem que daqui a nada já se faz tarde.
  Deixei cair o relógio novamente na algibeira, aproveitei para conferir se as correntes estavam bem presas no passador da cintura e lá fomos. Esperamos uns minutos e lá chegou a carreira. Entramos, pagamos o nosso bilhete e, com os lugares da frente ainda por ocupar, sentamo-nos mesmo ali que sempre se pode apreciar melhor a paisagem. Arrancamos e umas centenas de metros à frente voltamos a parar para dar entrada a mais gente que, tal como nós, via-se bem que o destino também era a romaria. E assim foi, de paragem em paragem, que até perdi a conta das vezes que vi gente a entrar. Eram oito horas mais pico menos pico, quando chegamos ao destino. Foi quando dei conta que era gente à pinha dentro daquela camioneta e já não havia lugar, nem de pé nem sentado, para mais um único passageiro. Nós, que estávamos junto da porta, fomos quase os primeiros a saltar para fora. Eu nunca lá tinha ido, mas a minha Jacinta conhecia aquilo muito bem e foi ela que disse para sairmos ali, que faltavam ainda duas horas para a novena e podíamos descer na calmaria até à igreja que ficava lá no fundo de mais de duas centenas de escadas.
   Chegamos perto dum portão de ferro entre dois pilares de granito muito altos e entramos num parque cheio de tílias e carroceis. Em cada topo daquele recinto havia uma capela. Eram assim quase iguais por fora, com seis lados como os favos das colmeias, mas eu quis espreitar por dentro, sempre com a Jacinta junto de mim, que já era tanta a multidão que se a gente se perdesse um do outro, só com a ajuda dos altifalantes é que nos voltávamos a encontrar!
   Dirigi-me à porta da primeira capelinha, que a Jacinta chamava calvário, e vi umas estátuas que pareciam gente de verdade. Eram feitas de madeira, muito bem pintadas e no meio uma criança parecia estar a explicar alguma coisa a gente mais graúda que o escutava com atenção. Percebi o que se tratava quando li numa placa: “Jesus entre os doutores da lei”.
   Atravessamos entre tílias e carroceis para a criançada, passamos ao lado dum lago com um chafariz, ambos em forma duma flor, mas não nos podíamos aproximar muito por causa duma grade de ferro que o cercava. À nossa direita havia outro terreiro com menos árvores e também cheio de divertimentos, mas para gente mais graúda. Chegamos à outra capela, por fora era mais bonita por ter umas grades de pedra à volta do telhado e cheio de curiosidade, lá fui espreitar por dentro e vi mais estátuas de madeira muito bem pintadas; a mais bonita de todas era uma imagem de Nossa Senhora com o menino no colo, transportada por uma burrinha. Na placa lia-se: “Fuga para o Egipto”.
Começamos a descer uma escadaria em ziguezague, com uma capela em cada zigue e outra em cada zague, e já dava para ver que não eram menos que bastantes. Sem querer saltar uma única que fosse, lá fui espreitando! Vi a Apresentação do Menino no Templo, a Adoração dos Reis Magos, a Cincuncisão, na seguinte já o Menino estava nas palhinhas com a vaquinha e o burrinho e aquilo já me estava a fazer cá um nó na mioleira que me virei para a Jacinta e perguntei:
   - Ó mulher, que raio de coisa quer dizer isto!?
   - De que estás tu para aí falar Manel? (respondeu-me a Jacinta sem abrandar a passada)
   - Tu nem me digas que não reparaste que o menino em vez de crescer está cada vez mais pequeno?!
   E a minha Jacinta, com aquele ar que usava quando falava para a Mimosa, que era uma vitela que ela tinha vendido na feira de Fafe para fazer dinheiro para pagar a promessa que foi cumprir naquele dia, respondeu-me assim:
   - Manuel Felismino, Manuel Felismino (e quando ela me trata pelo meu nome completo sem comer nenhuma letra, eu já sei que é coisa que não abona muito a meu favor) - quando a novena acabar a gente regressa pelo mesmo caminho e quando subires estas escadas, voltas a espreitar p’ra dentro das capelinhas e vais ver que a criança em vez de mingar já vai crescer!
   Foi quando eu percebi que estava a ver as capelinhas da última p'ra primeira! Já a minha Jacinta tinha percebido logo. Não sei a quem ela sai, mas aquela mulher sempre foi mais esperta que o diabo; até nos trabalhos do quintal sempre mostrou que é uma mulher de sabedoria; eu plantava um cebolo e ela outro, e as cebolas do cebolo dela eram cada graúda, daquelas que a gente fazia uma salada com umas farpas de bacalhau e um fio de azeite, e eram de comer e lamber os beiços e às vezes sobrava bacalhau e cebola nem um casco ficava no prato. Já as minhas, nem os porcos as queriam! Eram sempre tão bravas que eram capazes de fazer chorar aqueles santos de madeira que moram naquelas capelas. Com as vagens, os tomates ou as ervilhas era a mesma coisa. Os talhões que ela plantava e cuidava, davam sempre mais e melhor que os meus. Custou-me a aceitar a humilhação, mas acabei por me render ao dom que ela tem para aquelas coisas e disse-lhe:
   - Pronto Jacinta, tenho que admitir que nestes trabalhos, eu nem sou digno de encabar a tua enxada. A partir de agora o quintal é todo para ti que tu mereces!
   Aquela ideia não lhe agradou lá muito e pareceu-me que até ficou meio desconfiada com os gabanços que lhe fiz e de vez em quando anda por lá amuada e a queixar-se das cruzes. Mas eu arranjo forma de a animar; todos os anos na feira da ladra, compro-lhe uma enxada, um engaço e uma tesoura de poda. Tudo novinho em folha, daquelas ferramentas boas que vem de Espanha; de falta de apoio é que ela não se pode queixar. Mas isso são outras contas que não interessam para esta história que vos quero contar.
   Continuamos a descer a escadaria, eu lá ia apreciando aquelas capelas todas, até que chegamos às duas últimas que ficavam alinhadas uma com a outra, separadas por um fontanário de pedra com umas letras lavradas, coisa que a gente não sabia ler por estar escrito naquelas línguas de antigamente. Depois de espreitar onde vi a visita à Prima Isabel e por fim a Anunciação do Anjo Gabriel, virei-me para o outro lado e, na minha frente, surge uma praça enorme com o chão todo em pedra com mais um lago no meio em forma duma flor. Olhem que até ali já a minha vista se foi habituando a ver coisas maravilhosas, mas dar de caras com aquela praça, foi como se durante a descida sombria da escadaria eu estivesse a desbravar caminho e de repente surge aquela clareira soalheirenta onde se juntavam outros grupos peregrinos que chegavam ali por caminhos diferentes do nosso! Aproximei-me do muro para contemplar a vista e reparei nas duas torres da igreja com os sinos a chamar o povo. Mas não era música de sinos como os da nossa igreja da Senhora das Candeias; aquilo era coisa tão linda de se ouvir que a Jacinta murmurou:
   - Como é lindo o som do carrilhão!
   Percebi que afinal não era um nem dois sinos, que segundo a minha Jacinta, que é uma mulher que sabe tudo, o nome daquilo é carrilhão. Parei ali, com os meus ouvidos e os meus olhos a apreciar a música e a paisagem, e foi quando dei conta que uma brisa fresca vinha de mais além daquelas torres. Olhei, e reparei em duas filas de árvores que ziguezagueavam no meio duma verdejante pradaria. Estavam à distância de mais de uma hora de arado, mas dava para perceber que eram amieiros. Entre eles, caminhava um rio que ficava da cor de prata ao receber os primeiros raios de sol daquela manhã de Setembro. Era o rio Ave e quase nem se notava a corrente, como se também aquelas águas cristalinas se quisessem agarrar àquele lugar!
   Continuamos a descer a escadaria, atravessamos a praça de pedra entre dois edifícios brancos muito antigos; do lado direito tinha umas varandas por cima duma arcaria de pedra e à nossa esquerda era um edifício enorme com muitas janelas de madeira, todas com muitos vidros que não mediam mais de um palmo cada um. Segundo a minha Jacinta, àquele edifício chamavam os quartéis dos peregrinos e era ali que antigamente, durante os dias da romaria, abrigavam os peregrinos pedintes que levavam esmolas do povo da sua aldeia. Mas aquilo era tudo tão lindo que a gente nem sabia p'ra onde havia de olhar. Entretanto, os ponteiros do relógio da torre diziam que o tempo não era muito e demos corda à passada com medo de não haver lugar nos bancos e nós já não éramos nenhuns moços para assistir à novena de pé, pois isso era coisa que meu reumático não ia apreciar com agrado.
   Acabamos de descer a escadaria; olhem que contei mais degraus de pedra naquele dia que os vanços da escada durante toda a época da vindima; e os nossos pés pisavam finalmente o adro da igreja. A parte lateral já merecia a nossa aclamação, mas quando a Jacinta me puxou para entrarmos pela frente é que eu me verguei perante aquele monumento. Em cima da porta principal, parecia um altar todo em pedra com uma imagem da Senhora com o Menino no colo e anjinhos aos seus pés. De cada lado desta escultura, duas janelas com um relógio enorme por cima de cada uma das que ficavam junto das esquinas. Por cima dos relógios, os sinos no alto das duas torres continuavam a chamar o povo.
   Eu estava tão especado a olhar para aquela fachada que a Jacinta teve que me puxar para entrar. Meus amigos, se a parte de fora é linda, não tenho palavras para vos contar o que vi quando entrei naquela igreja. Olhem que eu sou um homem viajado; fiz a tropa em Braga, já fui ver as amendoeiras em flor, já estive mais que uma vez em Celorico, já fui à Régua, a Lamego e até a terras de Espanha uma vez fui numa excursão; olhem que vos digo que de tudo que há para conhecer neste mundo só me falta ver o mar e em todas as minhas romagens, nunca vi nada que se atreva a pedir meças em beleza com o interior daquela igreja! O sol entrava nas janelas viradas para o lado do rio com uma luz que parecia vinda do paraíso e batia nas paredes cobertas com azulejos com muitas imagens da vida de nossa Senhora. O tecto, lá muito nas alturas, em pedra talhada e pintada com tantas figuras que uma bastava para nos encantar. Eu olhava para um lado, para outro, para o alto, eram esculturas, altares metidos nas paredes, cortinas vermelhas bordadas com linha dourada, tanta coisa para admirar e os meus olhos ficavam presos em cada palmo daquelas paredes e daqueles tectos. Agora é que se a Jacinta não me beliscasse, eu já nem sabia o que estava ali fazer. Mas ela lá me arrastou pelo corredor, passamos por baixo dum arco enorme e dei comigo dentro duma torre que, lá muito no alto, recebia a claridade do sol que se espalhava por todo o interior. Era quase na mesma forma das cepelinhas da escadaria, mas em vez de seis tinha oito lados e era tão alta que até comentei baixinho com a Jacinta:
   - Olha só esta torre...! (a Jacinta, sem querer conversas naquele lugar sagrado, interrompe-me e despachou assim o assunto):
   - Qual torre Manuel Felismino? Isto que está por cima de ti é o zimbório! Agora benze-te que estamos na frente do altar.
   Umas pessoas que estavam sentadas num banco de madeira, encolheram-se umas nas outras para nos dar dois lugarzinhos que nós aceitamos e agradecemos. Ficamos mesmo ao lado dum altar dourado com uma imagem do sagrado Coração de Jesus que ficava de frente para outro com a imagem do Imaculado Coração de Maria. Eu olhei várias vezes para a esquerda e para a direita e olhem não sou capaz de dizer qual dos dois é mais formoso!
   Ajoelhei-me para a minha primeira oração, e foi naquele momento que fiquei definitivamente pasmado dos olhos! Até àquele momento eu estava tão encantado com tudo à minha volta que nem me tinha apercebido da maior riqueza em todo aquele santuário. Vocês tem que lá ir um dia, porque eu também não ia acreditar se me contassem! Duas colunas enormes de cada lado e, entre elas, uma mão cheia de patamares que chegam a um ostensório que fica lá nas alturas. Tudo em madeira rendilhada e pintada a ouro que brilha desde o chão até ao tecto, mas a brilhar tanto que um homem fica mais cego do que a olhar para o sol. E, como se não houvesse já beleza e brilho de sobra em cada palmo daquele monumento, lá estava Ela, no meio de todo aquele dourado, a sorrir e a reluzir ainda mais que tudo à sua volta. Meus amigos, mesmo ali na frente destes que um dia a terra há-de comer, colocada num pedestal dentro dum oratório que fica ao centro do grande altar, com o Menino Jesus sentado no seu braço esquerdo enquanto o direito o amparava, estava a rainha daquela romaria e daquele santuário, a Virgem Maria, a Cheia de Graça, a Senhora do Milagres, a Nossa Senhora de Porto d'Ave!
   Naquele momento, algo muito mais poderoso que a beleza e grandeza daquele santuário tomou conta de mim. O que eu senti em frente daquela imagem, naquele lugar tão divino onde Ela brilha mais que todas as estrelas do céu, vai muito para lá do que os olhos podem ver, do que os ouvidos podem escutar ou do que as mãos podem tocar. 
   Não foi fácil, porque não há nem há-de haver coisa tão linda neste mundo como o altar de Nossa Senhora do Porto d'Ave, mas acabei por fechar os olhos para me concentrar na minha oração e foi quando comecei a ouvir uma tocata que vinha da parte de trás; eram sons que vibravam entre aquelas paredes com uma melodia que pareciam anjos a tocar no paraíso. Era realmente lindo de se ouvir e vos digo que se existir música no paraíso, não deve ser muito diferente daquela! Mas desta, vez quem ficou inteiramente rendida àquela maravilha a vibrar nos nossos ouvidos, foi a minha Jacinta! Ela, a tremer, parecia assombrada, com uma cara de quem foi apanhada desprevenida, agarrou o meu braço e disse:
   - Manel, eu nem acredito que estou a ouvir o órgão de tubos!!
   - Sim, isto é realmente a coisa mais linda que já se ouviu; mas não tens tu vindo cá todos estes anos?
   - Ó Manel, ainda eu carregava a nossa Beatriz no meu ventre quando este órgão se ouviu pela última vez. Desde esse tempo que ele não toca para o povo; diziam que estava avariado e que era muito caro repará-lo. Mas graças a Nossa Senhora do Porto d'Ave, hoje tive esta surpresa e que saudades eu tinha de o escutar!

   Enquanto fazíamos a nossa oração, aquele som que fez tremer a minha Jacinta continuava a vibrar nos ouvidos de toda a gente, e olhem que aquilo é realmente de deixar qualquer um a tremer! Quando estava quase a terminar o segundo mistério, pela alminha dos meus santos pais de quem nunca esqueço nas minhas preces, comecei a ouvir também os cânticos que vinham do coro. Foi aí que reparei que aquela igreja estava a abarrotar. Ainda bem que a Jacinta me tinha apressado a passada, senão tínhamos ficado no adro como tantos outros, que a igreja era grande, mas fazia-se pequena para abrigar tanto povo.
   Soava a décima badalada no alto das torres, quando uma procissão de padres e sacristães subiu para a frente do altar. No meio daquele aparato, com a vestimentas todas bordadas e um chapéu de bicos mais alto que um cântaro, estava um senhor bispo daqueles que enche uma igreja. Era bem capaz de ser o mesmo que, por altura dos tordos, tinha ido untar a testa da moçarada lá da aldeia, mas isso não vou teimar.
   A cerimónia começou, o povo rezava e, quando chegou a homilia, o pregador contava uma história sobre uma imagem de Nossa Senhora que, por estar muito degradada e já não apresentar condição para estar exposta na igreja, ia ser enterrada. O pregador explicava que era costume fazer-se assim naquele tempo. Ao ter conhecimento desta situação, um professor ficou tão enternecido que pediu que lh'a oferecessem para a levar para a escola. O seu pedido foi atendido e com a ajuda dos seus alunos, construíram uma capela pobrezinha onde colocaram a velhinha imagem e passaram a fazer ali as suas orações. E foi na escola, durante as brincadeiras da criançada, que um dia um menino partiu uma perna. Todos os outros ficaram assustados e correram para a capela para rezar perante a imagem velhinha a pedir a cura para o seu amigo. As preces foram escutadas e, para pasmo de todos, minutos depois o amigo estava curado!
   O professor, quando ouviu a história contada pelos seus meninos, não teve dúvidas que a força do divino tinha estado naquele local, sentiu-se bem-aventurado por ter acolhido aquela imagem velhinha e resolveu restaurá-la. Quando chegou o dia em que esse trabalho ia ser realizado, sem que alguém lhe tivesse tocado com um único pincel, ela apareceu a brilhar como se saísse das mãos do mais afamado mestre daquelas artes! Depois da cura do seu aluno, este foi o segundo grande milagre da imagem velhinha que teria sido enterrada se aquele piedoso professor não a tivesse levado para a escola.

   Meus amigos, era uma história de arrepiar e não ficou por aqui; quando olho p'ro lado, vejo a minha Jacinta com o lenço da mão já encharcado a limpar as lágrimas! Segurava no terço e chorava! E eu só pensei cá com os meus botões:
   - Agora é que vão ser elas!!
   Porque a minha mulher é daquelas que quando lhe da p'ra rir, temos riso p'ra dar e vender, mas quando chora, oh valha-nos Nossa Senhora do Porto d'Ave! Ainda no ano passado, por altura do vinho, o choro daquela mulher durou semanas a fio. Foi quando morreu o tareco; aquilo é que era um bichano, grande companheiro e ainda melhor caçador; não havia rato que vingasse naquela casa. Mas aquele dia foi triste, e ainda mais triste que ver o bichano a boiar na dorna com as patas viradas p'ró céu, foi ver a minha Jacinta a chorar como uma carpideira! Imagino o que aquele gato lutou a tentar subir as paredes daquela dorna. Quanto a isso, eu carrego remorsos pr'a toda a vida; a culpa foi minha, que não quis misturar as padeiras com as americanas. Se misturasse as uvas todas, a dorna ficava mais cheia e o raio do bichano já conseguia escapar. Assim, lá se foi o caçador de ratos!!
   Mas isso são outras contas e voltemos à romaria de Porto d'Ave, que é daquela festa e daquela terra bendita que vos quero falar. O pregador acabou de contar aquela linda história e a cerimónia continuou com uma pompa em cada ritual que eu, que até já estava a contar com uma coisa em grande, nunca pensei que fosse tudo tão lindo e tão perfeito. Quando o fim se aproximou, comecei a escutar uma cantoria que nunca se ouviu em mais parte alguma; era uma ladainha em latim tão linda que, mesmo sem perceber o que aquilo queria dizer, ninguém arredava pé até que aquele espectáculo terminasse. Quase toda a gente a cantar, mas a cantar afinados e com pujança! Eu só me lembro das palavras que a minha Jacinta também cantava: “ora pro nobis” “ora pro nobis”. Olhem que vos digo que só por aqueles quinze minutos, que se não durou tanto bem perto lá chegou, já o passeio tinha valido a pena!
   Com a cerimónia terminada, ficamos ali ajoelhados a fazer tempo à espera que a multidão vagasse para entregarmos a nossa esmola. Bem, não era uma esmola qualquer que a minha Jacinta levava escondida no seu peito; aquilo era mais uma promessa que ela tinha feito a Nossa Senhora do Porto d'Ave caso a nossa moça arranjasse casamento. A nossa filha era uma rapariga casadoira, mas lá vai a verdade, de pretendentes a lhe falar não havia um que repetisse dois Domingos. A coisa podia ter sido diferente se ela pesasse menos duas arrobas, se não fosse aquela verruga no nariz e os olhos virados um p'ra nascente e outro p'ra poente. Mesmo assim, ela era das moças mais lindas da nossa aldeia, mas o que também não jogava muito a seu favor, era a sede que ela tinha e de água gostava pouco. Bem, disso ela não tinha culpa; herdou o vício da avó, a sogra que Deus me deu e que há muitos anos já partiu deste mundo, e também lhe dava para passar muitas horas na adega. Como os anos passavam e a rapariga a ficar cada vez mais entradota, a minha Jacinta lá se apegou à Nossa Senhora do Porto d'Ave e fez a tal promessa à espera do milagre, que lá se consumou. E olhem que nos podemos gabar de ter um genro que é um rapaz de dignidade; não é lá muito bem apessoado e um alqueire a mais na inteligência dele não chegava para o fazer doutor, que às vezes até parece que não ganha nas meças com alguns animais de criação que a gente lá engorda! Mas vem de boas famílias e é sério e trabalhador que é o mais importante; e mais a mais, foi este que Nossa Senhora do Porto d'Ave arranjou para a nossa famílias, daí que só podemos dar graças!
   Como as preces da minha Jacinta foram atendidas, lá estávamos ali para cumprir a promessa; entramos na sacristia, que ficava na parte de trás do altar, onde voltei a ficar abismado dos meus olhos quando olhei para o tecto em madeira, pintado duma parede à outra com uma imagem da Assunção de Nossa Senhora. Mas aquilo não era uma pintura qualquer, bem se notava que tinha mão de artista de fama! Era uma imagem tão linda e tão perfeita que eu quase apanhei um torcicolo de tanto olhar para o alto. Quando voltei a endireitar o pescoço, reparei que havia uma fila de gente onde já estava a Jacinta à espera da sua vez para pegar numa imagem da Virgem e colocá-la na cabeça. Eu lá a acompanhei e até foi ela que a colocou na minha cabeça e voltou a pousá-la numa mesa que, no instante seguinte, já estava nas mãos de outro peregrino. Parece que é um costume que já vem de tempos muito idos e alguém dizia que aquela imagem, que é igual à do altar em pedra que fica por cima da porta da principal, é a mesma que o professor impediu que fosse enterrada. Se essa história estiver bem contada, colocada na minha cabeça durante alguns segundos, esteve a razão daquele santuário e daquela romaria!
   De seguida, dirigimo-nos a um jovem que percebemos ser alguém de responsabilidade e importância naquele santuário. Meio envergonhados, pedimos o obzéquio de nos atender porque estávamos ali para cumprir uma promessa. Ele, imediatamente, desocupou-se do que estava a fazer e atendeu-nos com uma fineza a que não estamos habituados. Na verdade, o que gente lá deixou não foi uma simples esmola; era mais uma promessa a modos que, como já vos contei, tivemos que vender a Mimosa e juntar mais algum do já poupado. Mas o moço também o soube reconhecer que até nos ofereceu uma imagem da Senhora do Porto d'Ave, tal e qual a que estava no altar mas bastante mais pequena; De seguida, ainda nos convidou a fazer uma visita no museu que fica mesmo por cima daquele local. Nós, que nunca antes na nossa vida tínhamos entrado num museu, lá aceitamos e seguimos uma grupo de pessoas que subia umas escadas até que chegamos a uma sala com as paredes cheias de quadros que nem dava para os contar. Não havia um único que não tivesse a imagem de alguém em horas de aflição e outra da Virgem Santíssima; no rodapé de cada um daqueles quadros havia uma legenda a explicar o milagre, mas eram palavras ainda mais antigas que as do fontanário que já vos falei e ler aquilo não era coisa para gente como eu! Mas também não era necessário, porque bastava olhar para as imagens para se entender a graça que Nossa Senhora do Porto d'Ave atendeu. Mas eram quadros já velhos e vos digo que na parede da nossa sala, tenho eu um que já vinha no enxoval da minha Jacinta, com a imagem duma criança com a cara suja e a chorar, e é bem mais perfeito a modos que não o trocava por nenhum daqueles!
   O moço explicava que o nome daquilo era ex-votos, muitos tinham vindo do Brasil e tinham sido oferecidos por devotos a quem N. S. do Porto d'Ave ouviu as preces e as atendeu. Via-se também umas vestimentas de padres já carcomidas pela traça, uns livros com folhas muito amarelas da humidade e algumas já rasgadas, umas imagens de santos e santas que também já estavam de cores desbotadas que dava bem para perceber que eram de modas que já lá vão, e outras velharias a que a gente como nós nem liga! Enfim, na verdade não percebi o que viam ali de tão importante, mas se o povo ficava de boca aberta e se tudo que ali se vê está fechado a sete chaves, é porque é coisa de valor! Enquanto mostrava aquelas velharias, o moço que bem se notava ser gente de profundos saberes, explicava, explicava e voltava a explicar com muito entusiasmo que até parecia o pregador que tinha deixado a Jacinta em lágrimas durante a homilia. Mas ele utilizava uma linguagem ainda mais complicada do que os políticos na televisão e a cada palavra que eu escutava ficava mais baralhado! Era barroco, rócócó, azulejos joaninos, talha dourada, abóbada, carta régia, século este, século aquele, enfim; quanto mais ele falava mais complicado ficava! Quando saímos dali a minha Jacinta até comentou:
   - Não percebi uma palavra que o moço disse, mas que ele fala bem, lá isso fala!!!
   Descemos umas escadas, que já não eram as mesmas que subimos, e fomos junto do altar para fazer a última oração antes de nos despedirmos. Foi quando reparei em duas pinturas nas paredes laterais junto daquele altar dourado. De um lado era uma imagem de Santo Agostinho, com uma barba branca, um chapéu igual ao do senhor arcebispo e segurava um livro numa mão e uma pena na outra; mesmo na parede em frente desta imagem parecia um espelho, mas era outra pintura com a imagem de Santo Ambrósio. E olhem que se me dissessem que quem pintou aquelas imagens foi o mesmo artista que pintou o tecto da sacristia, eu não me admirava nada, porque também estas eram duma beleza e perfeição que bem podiam ter saído da mesma mão!
   Terminamos a nossa pequena oração, benzemo-nos e dirigimo-nos à porta da saída, a mesma por onde entramos; e olhem que se a gente fica pasmada quando entra, não é caso para menos quando olhamos do altar para o coro; a parede lá ao fundo toda revestida naqueles azulejos, com imagens da Senhora e do Menino que devem ser os tais azulejos joaninos que o moço falava com tanto entusiasmo. Depois de passar por baixo do arco enorme que separa o tal zimbório da parte mais recuada, reparei em dois balcões pregados nas paredes, ambos com uma escultura branca por cima que a gente até fica vesgo de querer olhar para os dois lados ao mesmo tempo.  Acenei à Jacinta a ver se ela explicava o que eram mais aquelas maravilhas que à entrada nem deu tempo para reparar em tudo, por culpa de tanto haver para ver e já era quase hora da cerimónia começar:
   - Manel, estas imagens brancas são as virtudes. As virtudes teologais e as virtudes cardinais; mas a maior virtude de todas não se vê nestas esculturas; é a paciência Manel, a paciência que eu tenho que ter para tantas respostas que tenho que te dar!!
   Eu fiquei a perceber que realmente já eram muitas as perguntas que eu lhe tinha feito e prometi comigo mesmo que não a chateava mais; mas ainda não tinha dado mais dois passos quando vejo nas mesmas paredes, a fazer esquina com o coro, mais dois balcões onde umas gaitas se erguem nas paredes e outras viradas para a frente, tudo muito rebuscado e pintado nos mesmos tons dos altares e eu não ia aguentar sem perguntar! Mas por graça de Nossa Senhora do Porto d'Ave, desta vez nem foi necessário, porque a Jacinta também parou a admirá-los como se nunca os tivesse visto antes e explicou-me com tanto entusiasmo que nem parecia a mesma mulher que segundos antes me tinha dado aquele raspanço!
   - Olha bem Manel, olha bem para isto que estamos a ver! Isto são dois órgãos de tubos muito antigos, mas apenas aquele funciona e era dali que saía o som que escutamos; (dizia ela apontando para o que estava à nossa esquerda) ah, que saudades eu tinha de escutar esta maravilha; sempre que este som me assaltava a memória, era com grande tristeza que eu pensava que nunca mais na minha vida o voltava a escutar; mas hoje a Nossa Senhora do Porto deu-nos mais esta graça!

   Dito isto, em jeito de agradecimento e também de despedida, virou-se para o altar e fez uma vénia à Senhora com o Menino no colo e eu acompanhei-a com o mesmo gesto. Benzemo-nos e fomos até à porta da saída, onde tivemos que aguardar um minuto por causa duma mulher que vinha de joelhos. Junto dela, uma criança com os olhos encharcados em lágrimas segurava-lhe a mão. Ficámos parados para não estorvarmos a promessa e confesso que aquela passagem muitas vezes entristece os meus sonhos. E olhem que não fui eu o único a ficar compadecido; também um senhor abade de cabelos brancos, que já não era muito jovem mas bem se notava que era um padre à moda dos tempos que correm, reparou naquele sacrifício e dizia-lhe que não tinha que fazer aquilo e insistia com ela para parar; mas a mulher fazia orelhas moucas como se aquelas palavras não fossem para ela e, cheia de cansaço e dores mas muito decidida, continuava!

   Quando dobrou a esquina da igreja que ficava do lado do rio Ave, saí; olhei à minha direita e reparei na entrada duma capelinha; um arco quase até às alturas dos muros enormes que seguram a escadaria. Aproximei-me, e olhem que eu sei que isto começa a ser muito repetido, mas aquilo era de tal formosura que até comentei:
    - Jacinta, nunca antes na minha vida eu vi um presépio tão lindo.
    Desta vez ela respirou fundo e, com aquele olhar que já vos falei, respondeu-me:
   - Esta capela é realmente o mais linda de todas; mas diz-me lá Manuel Felismino: achas mesmo que é um presépio que estás a ver? Onde vês tu a vaquinha e o burrinho? Onde estão os pastores e os reis Magos? Onde está a estrela do Oriente...?
   - Pois, isso realmente falta aqui. Mas então, quem vem a ser afinal, aquela criança que acabou de nascer?
   - Esta é a capela da Natividade de Nossa Senhora tal como diz naquela lápide que a tua preguiça não te deixou ler! Esta criança que nasceu é a Virgem Maria, naquela cama está a Santa Ana e este aqui é São Joaquim. E digo-te mais Manel, foi precisamente aqui que o professor e os seus alunos construíram a primeira capela para a imagem velhinha que ia ser enterrada. Agora, se formos pelo caminho que descemos, já vês tudo pela ordem correcta nas oito capelas da escadaria: a Anunciação do Anjo Gabriel; a visita à prima Isabel; o Nascimento do Menino e aí já vês vaquinha e burrinho; depois a Adoração dos Reis Magos, a Circuncisão, e por aí adiante até terminar primeira capela que espreitaste, onde viste o Menino a pregar aos doutores. E agora, já que estamos pertinho, em vez de subirmos estas escadas, vamos até à capela da Senhora da Boa Morte que é a única que nos falta visitar e é muito digna de apreciar. Depois, é só seguir a calçada e vamos ter ao pátio no cimo destas escadas.
   Assim fizemos e em menos de cinco minutos estávamos à porta duma capela que ficava junto dum edifício em pedra, que a Jacinta chamou convento porque, dizia ela, em tempos muito idos, ali era um convento. Estava vazia, com as portas abertas e quando entrei, senti aquele silêncio que nunca se encontra fora duma igreja. Ali estávamos nós, em frente duma imagem de Nossa Senhora deitada no caixão com as mãos a rezar. Era uma capela pequena e muito simples, mas da gente ficar pasmada a olhar para o altar que também era todo pintado a ouro e ainda mais rebuscado que o da Senhora do Porto d'Ave. A beleza que volta e meia surgia na minha frente era tal, que eu estava cada vez mais apaixonado por aquele santuário e já começava a duvidar do que os meus olhos viam e perguntava como era possível existir tanta coisa maravilhosa no mesmo lugar. 

   Saímos, depois de terminar a nossa oração, e subimos mais uns metros de calçada até que chegamos ao pátio que ficava à altura das torres. Paramos para descansar e apreciar mais uma vez a igreja a que chamam mosteiro, e reparei que naqueles telhados havia muitos picos de pedra iguais aos que existiam em cada esquina dos muros da escadaria. Era lindo aquele monumento visto dali; aliás, aquele monumento foi construído para ser lindo visto de qualquer ponto! Olhei para o fundo e a mesma penitente, que ainda não não estava tão entrada na idade como nós mas notava-se bem que jovem há muito que deixara de ser, continuava de joelhos a dar voltas naquele adro enorme. Desta vez fui eu quem ficou com lágrimas ao olhos; era triste ver aquela mulher com os joelhos a sangrar e agora era a criança que lhe dava a mão a pedir-lhe para parar. Ela não conseguia esconder a dor, mas continuava com cara de quem por nada deste mundo ia desistir de cumprir o que tinha prometido. Que Nossa Senhora do Porto d'Ave me perdoe, mas aquilo não é sacrifício que uma alma viva deva penar.
   A Jacinta puxou-me o braço para me afastar daquela passagem triste e fiquei de costas para as torres que, naquele momento, dobravam as doze badaladas. Na nossa frente surge um enorme fontanário. Olhei mais para o alto e vi nas esquinas dos dois edifícios brancos, dois brasões de pedra parecidos com um que existe no solar duns doutores em Celorico, onde a minha irmã mais nova serviu até casar e quase todos os anos, por altura do São Matias, eu ia lá passar uns dias a fazer enxertos. Mas, em abono da verdade, digamos que estes são bem maiores e muito mais rebuscados do que o do solar de Celorico. 
   Dali, a escadaria segue por ambos os lados e no meio, vê-se um jardim pequeno mas muito lindo e cuidado, onde há mais um lago com oito lados e uma estátua no centro a fazer de chafariz.
   Mais degraus, agora a toda a largura da praça; não eram mais dos que descemos antes da novena mas agora parecia que não tinham fim, e eu a precisar dum bom descanso e com tanto ainda para subir. Não foi com pouco custo que chegamos finalmente à praça de pedra onde dou de frente com um monumento que me deixou de boca aberta. Tudo à volta era bonito, mas o que me bateu mesmo na vista, foi aquele monumento em frente que fazia daquele espaço uma praça que, se alguém disser que já viu alguma mais bonita, vos digo que sou o primeiro a querer lá ir para ver com os meus próprios olhos, porque de outra maneira eu não vou acreditar! A Jacinta ao ver-me pasmado a olhar para lá, apontou e disse:
   - Olha só Manel, como é lindo o baldaquino.
  E olhem que é mesmo. É um altar lá no alto com umas vidraças pintadas, abertas de modo a que pude ver no interior, uma imagem de São Francisco de Assis que ajudava Jesus a descer da Cruz. Também aqui, para subir, tanto pode ser pela direita como pela esquerda. Depois, ambas as escadas encontram-se no mesmo pátio debaixo do tal baldaquino e dali voltam a subir para ambos os lados. Viradas para nós, lá no alto em cima daqueles muros, seis estátuas de pedra do tamanho de gente grande, pareciam que nos estavam a saudar. Mais uma vez a Jacinta adivinhou a minha curiosidade e disse que eram o Rei David, Santa Ana, Virgem Maria, São Gabriel, São Zacarias e São Simão. Claro que eu não me ia lembrar disto tudo de cor, se volta e meia aquela mulher não voltasse a perguntar de quem eram as tais estátuas de pedra, e como eu já não me lembrava da lição, lá vinha ela a puxar pelos galões e repetir a lengalenga outra vez, até que eu acabei por meter aquilo na cabeça.  
   Era realmente um monumento de nos deixar sem voz. Nós já tínhamos descido por ali antes da novena, mas como ficou nas nossas costas e havia tanta coisa linda na nossa frente, nem dei conta daquela preciosidade. Caminhamos até lá e reparei que toda a gente bebia numa fonte que fica junto à estrada, mesmo por baixo do tal baldaquino. Achei estranho por haver mais fontes onde ninguém bebia e ali o povo fazia fila. A Jacinta explicou-me que era a Fonte do Chinês e segundo uma lenda antiga, quem beber daquela água volta sempre a Porto d'Ave. 
   Ao ouvir aquelas palavras, eu, que como bem sabeis até nem sou homem muito dado a beber água, desta vez nem hesitei e fui p'ra fila beber! Porque pode haver muitos lugares bonitos neste mundo, mas eu não acredito que algum se compare àquele jardim de tílias e plátanos, praças e terreiros, escadarias e muros brancos, pinturas e esculturas, lagos e fontanários, capelas e altares e muito mais há para contemplar ali, onde o aroma da tílias namora com a brisa do rio Ave. Meus amigos, mesmo que eu fosse homem de sabedoria e conhecesse todas as palavras que há no mundo, elas iam ser parcas; porque para vos fazer compreender a força da perfeição e da beleza, uma força tão grande que nos deixa a alma acorrentada, é necessário mergulhar no interior daquele lugar, tocar, ver e sentir o cheiro daquele jardim que Deus, com tanto esmero, construiu na margem direita do rio Ave, onde nem a mais pequena pedra foi colocada ao acaso. Tive que beber água naquela fonte, porque se existe um lugar onde um dia eu quero voltar, é esta linda aldeia que se chama Porto d'Ave. 


(Tó de Porto d'Ave)


Ida à Romaria
(2ª Parte)


   Bebi na Fonte do Chinês e vos digo que bem me soube aquela água que até já tenho saudades e não vou descansar enquanto não voltar lá a beber. Com as goelas frescas saímos dali para dar a vez a outras pessoas que faziam fila para também saciarem a sua sede. Na vez de subirmos os degraus que tínhamos descido pela fresca a ver as tais capelinhas que o povo chama calvários, subimos uma avenida de pedra com muros brancos de ambos os lados. Por ser dia de festa, estava coberta por uma arcaria. Era uma avenida muito linda, com passeios bem alinhadinhos e, de ambos os lados, candeeiro sim, candeeiro não, havia um canteiro com uma árvore ainda com poucos anos de vida. A Jacinta disse que aquela avenida se chamava arruado; se ela diz que é arruado, é arruado, porque ela sabe do que fala, pois conhece bem melhor aquele lugar do que a mim!
   Naquele dia não havia o mais pequeno espaço livre em qualquer das bermas. Era roulotes de farturas, doceiras, louças e bonecada de barro, cassetes, cintos, carteiras, óculos, roupa, calçado, vasos com plantas, chineses a vender relógios e rádios, homens muito negros vestidos com umas fatiotas africanas a vender bonecos de madeira pintada, brinquedos aos milhares, enfim, aquilo só mesmo visto; atrevo-me a dizer que não existe nada no mundo que não se venda naquela romaria!
   - Ó freguesa – ouvi uma voz vinda duma banca de doces.
   Mas a minha Jacinta não ligou, deu mais meia dúzia de passos e parou noutra banca, onde pediu para meter numa saca, uma dúzia de cavacas e alguns cigarros p'ra gente adoçar o bico quando chegasse a casa. Estranhei e perguntei porque não comprou na outra banca; a minha Jacinta respondeu-me que compra sempre na afamada doceira de Cimo de Vila, que a especialidade passou de mãe para filha sem perder o paladar de antigamente! Além disso, por ser romaria ela capricha ainda mais. Enquanto a escutava já me apetecia provar ali os doces, mas como eles pedem um gole de tinto a acompanhar, decidi deixar para mais tarde!
   Depois foi a minha vez de também fazer uma extravagância, quando passei ao lado duma roulote de cassetes onde ouvi o “apit'ó comboio”. É a tal cantiga que até a mim me põe a abanar! Aquilo é que foi o boa-bai-ela quando o Manel 'Rouxinol' começou a cantá-la no casamento da nossa Beatriz! Bem me lembro como o raio da cantoria levantou o povo todo e era novos e velhos a cantar e a correr pelo salão com as mãos nos ombros uns dos outros numa grande algazarra. Então dirigi-me ao homem da roulote e perguntei quanto custava a cassete que estava a tocar, ao que ele me respondeu que ali já não havia cassetes e o que eu estava a ouvir era um disco cê-dê. 

   - Disco cê-dê?!! Que raio é um disco cê-dê?
   - Ó amigo, olhe que o último homem a vender cassetes nesta terra foi o meu avô, e já lá vão mais de uma dúzia de romarias que Deus o chamou p´ró outro lado da vida! O que toca agora é isto que você está a ouvir!
   - E será que essa roda prateada toca igual à cassete? (perguntei)
   -Não toca igual não senhor, toca muito melhor; ou será que vossemecê alguma vez escutou um som tão perfeito a sair duma cassete?
   A resposta do vendedor convenceu-me e lá paguei o disco cê-dê! Mas vos digo que bem enganado fui, pois aquilo foi burla e das de artista profissional! Eu não sei se existe alguma máquina onde aquilo dê música, mas no meu rádio é que não tocava de maneira nenhuma, e vos digo que aquilo não é nenhuma bagatela; tem A.M., F.M, cassetes e antigamente até dava p'ra ouvir as canções daqueles quatro moços de cabelo comprido que cantavam o obladi-obladá e perdi a conta dos folhetins que acompanhei naquele rádio velhinho. Era eu um rapazola que andava ainda a arrastar a asa à minha Jacinta, quando o ganhei numa rifa da Páscoa. Mas a verdade é que o disco cê-dê ali não tocou nem uma nota e a última vez que ouvi o apito comboio foi mesmo antes de o pagar na roulote do burlão. Mas também vos digo que nem tudo se perdeu; então não é que um santo dia vejo o meu disco cê-dê pendurado nas ervilhas da horta da minha Jacinta! Aquilo fez-me alguma confusão e, assim como quem não quer a coisa, perguntei:
   - Ó Jacinta, porventura as ervilhas também gostam de dançar o “apit'ó comboio”?
  - Ó Homem, se a roda não toca no rádio e não, para que raio a queres tu? Pelo menos serve para espantar a pardelhada que me andava a penicar a horta toda!

   E foi assim o triste fim do disco cê-dê. Dar quase o dinheiro de um bife de romaria por aquela roda, foi a única coisa que me arrependi de ter feito naquele dia. Voltemos então à romaria que da romaria é que interessa falar. Continuamos a caminhada por ali acima e, mais ou menos a meio do tal arruado, os muros do lado direito eram interrompidos por mais uma escadaria. Também aqui, podia-se escolher um de dois lanços de degraus que iam ambos ter ao mesmo terreiro, um espaço fresco da sombra de muitas tílias enormes. Mas o que me espantou foi a quantidade de melões e melancias que ali se podiam comprar. Meus amigos, eram milhares e milhares de melões de casca de carvalho e olhem que se calhar até estou a mingar o número; bastava respirar fundo, que aquele ar sabia tanto a melão que até parecia que a gente os estava a comer!!
   Ali havia outra escadaria parecida com a que tínhamos acabado de subir, que nos levava ao terreiro dos carroceis e outros divertimentos. A Jacinta já ia embalada, que era por ali que tínhamos que continuar a subir com destino à nossa camioneta da carreira. Mas as pernas a pedir-me para parar e àquela hora já o estômago dava horas, e o apetite ainda aguçou ainda mais quando reparei numas barracas de madeira com povo a fazer fila à espera da sua vez. Algumas eram talhos e a carne que estava ali para toda a gente ver, e bem se notava que era de gado de bons pastos que aquela cor não engana. Já as barracas maiores eram restaurantes onde se fritava bifes. Aquilo era coisa à séria; se os melões eram milhares os bifes não eram menos. Os talhos a vender, as barracas a fritar, e o povo a comer, mas a comer à fartazana!
   Aí abrandei a passada e disse à minha Jacinta:
  - Mulher, já tratamos da bicharada antes de vir, ninguém espera por nós em casa; veio-me assim uma ideia que se comêssemos um bife num restaurante destes não era pecado nenhum e até podíamos ficar p'ra acompanhar a procissão dos anjinhos?
   A minha Jacinta olhou-me com aquele ar que bem sabeis, e disse:
   - Não era pecado Manel? Ora diz-me lá qual foi o dia em que a gula deixou de ser pecado?! Ainda por cima bifes Manel, num restaurante destes?! Vamos mas é apanhar a carreira e demos graças a Nossa Senhora do Porto d'Ave, pois se há coisa que nunca faltou na nossa casa foi comidinha na mesa!
   - Ó mulher, a gente já trabalhou e poupou tanto na vida, mas agora que os moços estão criados, ambos na Suíça e sempre nos vão mandando um notinha, a rapariga bem se arranjou com o nosso genro, bem que a gente podia comer aqui um bife como faz toda a gente.
   - Deixa-te dessas coisas Manel que isto não é p'ra gente como nós; comer num lugar destes é coisa de fidalguesa e fidalgos foi coisa que nunca na vida nós fomos e não vai ser hoje que vamos aprender a ser!!
   - Fidalguesa?!! (dizia ao lado homem que ouvira a minha Jacinta, e que tinha ar de honradez mas que se via bem que fidalguesa também não era com ele) - Qual fidalguesa qual quê? Comer bifes todo ano é coisa de fidalguesa, mas na romaria o bife é p'ra todos!!
   - Bora lá entrar, mulher, que uma vez não são vezes e Romaria como esta só há uma vez no ano!
   A minha Jacinta, que tirando o casamento da nossa Beatriz sempre cozinhou a comida que a gente comeu, acabou por se convencer e, meia envergonhadita, lá entrou no tal restaurante. E ouçam o que vos vou dizer; aquilo era uma coisa fina: pratos virados p'ra baixo, guardanapos de papel brancos, muito bem dobradinhos dentro dos copos; uma jarra com flores em cada mesa e tudo à volta estava tão bem asseado que da falta de requinte tenho a certeza que ninguém se queixou! Sentamo-nos na mesa ao lado do cavalheiro que convenceu a minha Jacinta a entrar ali, e logo apareceu uma rapariga a perguntar se a gente ia comer bife de romaria, ao que respondi que sim. E porque subir aquela escadaria toda me tinha deixado as goelas secas, disse-lhe que fizesse o obséquio de trazer já uma caneca de tinto do melhor, que o branco faz-me dureza nos intestinos.
   Não foi necessário esperar muito e nem queiram saber como era a travessa que nos colocaram na frente; aqueles bifes pareciam lençóis que a Jacinta até perguntou se não se tinha enganado na mesa que nós só éramos dois. Mas não houve engano nenhum e olhem que a parte que passava para fora das bordas do prato era maior do que a cabia lá dentro. Vinham numa travessa cobertos com um molho de cebolada e se o bife já era de primeira, então vos digo que com aquele molho é que estava da gente lamber a beiça. E como nem só de carne vive o homem, por baixo dos bifes a travessa tinha batatas fritas aos palitos que eram uma iguaria que não ficava atrás do presigo por causa do sabor do molho da cebolada. Aquilo apetecia só de olhar e mesmo sem ser tenrinho tenrinho, a gente disso nunca se queixa que para nós não é coisa que incomode, porque tanto eu como a Jacinta ainda estamos de bom dente, pois sempre tomamos leite de cabra na nossa meninice. Aliás, foi quando guardávamos os nossos rebanhos que a gente começou o nosso namorico; isto cá p´ra nós que mais ninguém nos está a ouvir, até foi no meio das cabras que a nosso Zé Maria foi concebido! O meu sogro é que temia pela honra da família e veio com a história do neto prematuro. Mas o rapaz veio com a gestação toda a que tinha direito e, se a gente casou antes ou depois daquela tarde, isso não tem importância alguma; passado um ano lá veio outro rapaz e ainda mais tarde, quando a minha Jacinta já começava a perder as esperanças, apareceu a nossa Beatriz que era a rapariga que a Jacinta tantas vezes pediu a Nossa Senhora do Porto d'Ave e, como sempre, acabou por ser atendida. E olhem que a gente está quase nas bodas d'ouro com os três filhos já casados e dois casais de netos já graúdos e todos bem amigos da gente. E mais a mais, se as cabras o faziam, porque raio não podíamos fazer nós também?! Mas isso não são contas que nem são para aqui chamadas!
   A gente lá repastou aquela iguaria, mas a minha Jacinta nem de meio bife precisou para ficar satisfeita. Já eu, para ajudar a empurrar tudo que tinha no prato, lá tive que pedir mais uma caneca do mesmo tinto que também era pinga de se apreciar. Com o nosso vagar, até porque ainda faltavam duas horas para a procissão, lá fui saboreando cada garfada até deixar no prato só algumas gorduras. Olhem que muitas vezes me vem os desejos que até fico ougado só de recordar o sabor do pequeno naco de rosca que comi depois de limpar aquele prato.
   Quando a rapariga voltou à nossa mesa, perguntou se a gente tinha gostado, ao que respondemos que estávamos satisfeitos e pedimos-lhe que nos fizesse o obséquio de nos trazer mais dois guardanapos para embrulhar dois nacos de rosca com meio bife que tinha sobrado no prato da Jacinta, que lá p'ró final da tarde sempre dava p'ra prendar o estômago até à hora da ceia.
   Reparei que no final do bife, todos os outros comensais comiam uma fatia de melão de casca de carvalho, e alguém dizia que só assim a tradição fica completa. Nós resolvemos fazer igual porque uma vez ali sentados, cerimónias não íamos fazer, até porque tradição é tradição! E lá vieram as duas fatias daquele melão parecia que lhe tinham deitado pimenta; aquilo foi comer até só sobrar a casca quase tão fina como uma folha de couve. Depois da conta; não foi nenhuma ninharia mas quando a gente fica satisfeita até paga com prazer; já com o lanche na cesta da Jacinta, saímos dali p'ra dar lugar a outros clientes que faziam fila para entrar e fomos procurar uma fresca p'ra fazer a digestão. Foi quando me levantei da cadeira que me dei conta que o meu equilíbrio me falhava que até comentei que se calhar foi o molho de cebolada que me deixou tonto!
   - Foi a cebolada foi, Manuel Felismino... às tantas até foram as batatas ou o melão!!!
   A Jacinta desta vez estava tão brava que antes que a coisa piorasse, ouvi aquela reprimenda sem tugir nem mugir. Em silêncio, ela sempre com um olhar de quem não estava a gostar da minha forma de caminhar, fomos à procura duma fresca para descansar. Naquele dia não era fácil fazer uma sesta, tamanha que era a multidão, mas a verdade é que eu cheguei a passar pelas brasas à sombra duma tília junto das capelas que já vos falei.
   Quando a hora da procissão se aproximava, acordei com um beliscão no nariz que, segundo me atirou a Jacinta, já me tinha chamado e beliscado várias vezes sem eu parar de ressonar que ela até passou vergonha com as risadas que algumas pessoas faziam. Metade acordado e com a outra metade a dormir, recebi a ordem para descer até à igreja para ver os preparos da procissão para depois seguir o itinerário, coisa que as minhas pernas me pediam para recusar, a modos que respondi:
   - Jacinta, sabes bem que eu já não sou o Manel que tu conheceste e já não tenho pernas para procissões que a minha passada não é a de antigamente.
   - Ai Manel, se fosse só a tua passada que tivesse perdido a força de antigamente, que grande utilidade ainda tu terias! Mas p’ró bife e duas canecas de tinto que pareciam cântaros, tiveste tu passada sem te queixares da idade. Bebesses tu mais na Fonte do Chinês e menos no restaurante e ias ver que tinhas pernas para a procissão. Ai homem do diacho que são estas coisas que ainda te vão fazer passar uma boa temporada no purgatório! Fazemos então assim: descemos estas escadas e vemos tudo a passar com respeito como se fossemos atrás do andor de Nossa Senhora do Porto d'Ave.
No meio daquela multidão, descemos até ao muro por trás da tal Fonte do Chinês, e ali arranjamos um lugarzinho que parecia que estava guardado para nós. Três bombas que quase me rebentaram os ouvidos estouraram no ar e o som das fanfarras vinha lá do fundo da escadaria. Era gente à pinha nas duas bermas da estrada e quando a procissão começou a aproximar-se, fiquei pasmado com tanta pompa, com tanto brilho, e sobretudo com tão grande devoção a Nossa Senhora do Porto d’Ave.
   Na frente do cortejo vinham quatro cavalos brancos a abrir caminho. Nunca vi cavalos com a elegância daqueles! Eram tão grandes que parecia que vinham a cavalo noutros cavalos. Vos garanto que a mais pequena daquelas quatro criaturas não media menos de dez bons palmos desde as ferraduras até ao lombo. Montados neles, quatro cavaleiros fardados, com capacetes a brilhar com um rabo de cavalo pendurado. E lá iam a marchar com autoridade pelo meio da multidão que se afastava para as bermas. A ordem instalava-se por onde passavam ao som da fanfarra que vinha logo logo a seguir à Cruz de Cristo acompanhada por duas lanternas, transportadas por homens com opas azuis.
   Depois da fanfarra, com aqueles tocadores a fazer habilidades entre uma e outra pancada nos bombos, outros a tocar pratos, caixa, cornetas e outros instrumentos com nomes esquisitos, seguiam duas filas de escuteiros que parecia que não tinham fim; os mais pequenos à frente e os maiores a seguir, marchavam alinhadinhos sempre comandados pelo som da fanfarra...tretrerum...trererumm... trererumm... Olhem nem no meu juramento de bandeira no Regimento de Cavalaria em Braga nós marchamos mais alinhadinhos que aqueles escuteiros!
   Pelo centro da estrada, com uma pessoa em cada berma a segurar num cordão, seguiam mais de uma dúzia de bandeiras erguidas ao alto, com um santo ou santa estampado em cada uma. De seguida começaram a aparecer outras bandeiras, mas estas já não eram de santos; cada uma representava uma instituição daquela terra; uma em xadrez com a fonte do chinês que já vos falei, era da equipa de futebol de Porto d'Ave; outra do rancho folclórico, do grupo coral, do clube das bicicletas; enfim, também destas perdi a conta até porque o que vinha a seguir é que tomou conta da minha memória quase toda; mesmo na nossa frente, com coroas na cabeça e vestimentas de muitas cores a reluzir, passava mais de uma centena de anjinhos. Alguns meninos mais malandrotes, vinham fardados de militares do tempo dos romanos e traziam uma espada ou uma lança e com elas representavam mais do que a conta, o papel que estavam a desempenhar! Eu sei que não devia, mas confesso que achei piada a um menino, até porque nas crianças tudo se perdoa, quando ele fazia cara da bravo e dava com a espada nas pernas de algumas pessoas que assistiam na berma da estrada!
   Repartidos entre toda aquela criançada e algumas pessoas já mais entradotas a representar quase todos os anjos e santos que há no céu, passavam os andores que pelos dedos das duas mãos não deu para os contar todos. Era a senhora de Fátima, o S. Miguel, a Senhora da Boa Morte, a senhora da Graça, e cada vez insisto mais que aquilo merece mesmo ser visto; todos enfeitados com com flores de todas a cores e de quanta espécie existe; era como se o mais lindo jardim que há no mundo estivesse a desfilar naquela estrada para toda a gente ver. Os andores maiores e mais pesados eram transportados por homens, uns mais jovens e outros nem tanto e dava bem para perceber que o peso que carregavam não era tarefa para todos. Já os mais leves vinham aos ombros de raparigas. O respeito e devoção era grande tanto para quem participava como para quem, tal como eu e a minha Jacinta, apenas assistia. Mas o último trazia ainda mais brilho e era sem dúvida aquele que mais espalhava respeito e devoção. Que imagem linda trazia aquele andor enfeitado com flores das mesmas cores do manto, que passava no meio da multidão e toda a Romaria ficava em silêncio. O povo olhava, benzia-se, rezava, limpava as lágrimas, toda a gente emocionada e o caso não era para menos; porque com o seu manto azul e o menino Jesus no colo, em cima dum andor enfeitado com flores azuis e brancas, trazido nos ombros de quatro homens com opas nas mesmas cores enquanto outros quatro os acompanhavam à espera de render os companheiros quando esses estivessem cansados, e para o respeito ser ainda maior, de cada lado marchavam três bombeiros com as fardas de cerimónia e capacetes e machados a reluzir, aquela que estava a passar ali mesmo na frente dos nossos olhos, era a imagem da rainha daquela grandiosa romaria, a Nossa Senhora do Porto d'Ave!
   Logo atrás via-se a sair o fumo do turíbulo que um senhor abade abanava e o cheiro a incenso espalhava-se por toda a parte. Logo o respeito da multidão aumentava e não havia uma alma viva que não estivesse de pé, muitos homens seguravam o chapéu junto ao peito e todos em silêncio, viam passar seis homens com opas vermelhas a segurar nas hastes do pálio que cobria o senhor arcebispo que transportava uma pequena caixa de prata onde estavam guardadas as Relíquias do Santíssimo Sacramento.
   O grupo seguinte também não passou despercebido! Era constituído por homens com opas azuis, bordadas com uma insígnia dourada muito bonita; faziam duas filas e na frente de todos, com um cajado na mão com a parte de cima curvada em caracol, vinha o moço que nos ofereceu a imagem da Senhora e nos mostrou o museu.
   - Quem são aqueles? (perguntei baixinho e logo a Jacinta respondeu que era a Mesa da Real Confraria de Nossa Senhora do Porto d'Ave e acrescentou que só agora percebeu que aquele jovem na frente, era afinal o Juíz presidente da Irmandade e todos os outros que o acompanhavam eram, portanto, os confrades).
   Ainda mais asseados, seguia um grupo que se via que eram pessoas importantes! As senhoras de indumentária de cerimónia e cabeças saídas do cabeleireiro tal como fez a nossa Beatriz no dia que deu a mão ao meu genro; os cavalheiros não faziam pior figura; todos de fato preto e colarinho branco que só percebi que aquilo não era um uniforme quando reparei que não traziam boné e as gravatas eram todas diferentes! Muito vincados e com o nó de gravata apertado, lá suportavam o calor com tanto ainda para subir e descer. Durante a passagem, sorriam e faziam curvaturas com a cabeça, ora para a direita, ora para a esquerda, cumprimentando a população. Percebi que aquele grupo era a nata da sociedade daquela terra e ouvi alguém disse que eram os presidentes; olhem que se for verdade, só presidentes naquela terra, se não são uma dúzia vos digo eu que anda lá muito perto! 
   Também de farda igual, duas bandas de música com instrumentos que até encandeavam a gente de tão polidos que estavam, seguiam tão afinados como alinhados e o espectáculo que nos davam eram bonito de ver e ouvir.
   Atrás destes, um grupo de romeiros da Irmandade de São Francisco de Assis cantava à nossa senhora e era seguido por uma enorme multidão que não tinha fim, que também caminhava a cantar, mas lá vai a verdade, aqui a afinação não merece os maiores gabanços. A minha Jacinta não perdeu a oportunidade de me atirar mais uma vez, dizendo que era ali no meio daquele povo que nós devíamos estar; mas eu sei que lá no fundo ela também gostou de ficar ali a apreciar, porque nestas coisas, quem vai na procissão só vê o povo enquanto que o povo é quem vê a procissão.
   Mal acabou de passar, apareceram novamente os cavalos brancos no fundo do arruado e foi por pouco que não tiveram que abrandar a marcha para não esbarrar com a cauda da procissão. Aquilo foi quase como uma sardinha a comer o rabo e bastava ter mais uma centena de pessoas e não ia ser fácil de resolver a confusão que ia nascer!!
   Ali ficamos a ver mais uma vez, agora a descer a estrada. Apesar dos homens e mulheres que carregavam os andores se mostrarem muito estafados e com o suor a escorrer no rosto e também os presidentes já terem aliviado o nó da gravata, tudo o resto continuava com a mesma pompa com que tinha subido a estrada. Como todo aquele cortejo regressava à igreja, a Jacinta, com aquele olhar de quem pergunta e responde sem pedir opinião, virou-se p’ra mim e disse:

   - Manel, vamos descer estas escadas para nos despedirmos da Senhora e depois procuramos uma camioneta da carreira que nos leve de volta à nossa casinha.
   Sem tossir nem mugir já eu estava a descer aqueles degraus. Quando chegamos ao adro já lá estavam, muito alinhadinhos, os cavalos brancos, os escuteiros, os músicos, todos ao som da música da fanfarra a marchar sem sair do mesmo sítio. Os andores cheios de flores, conforme iam chegando eram colocados no adro, apenas o da Senhora do Porto d'Ave entrou na igreja e logo entramos nós para arranjar lugar num dos bancos de madeira. Apesar de lá ter estado poucas horas antes, voltei a ficar encantado a olhar para aquelas paredes, aqueles tectos, aqueles altares dourados, painéis de azulejos e ainda bem que voltei lá, porque se tivesse visto apenas uma vez, eu próprio ia ter dificuldade em acreditar que um monumento assim pudesse existir neste mundo.
   Passados uns minutos fez-se silêncio e começou a última cerimónia religiosa da romaria. A ali estávamos nós no meio da multidão que não cabia toda lá dentro.
   No final, deixamos mais uma pequena esmola pelas almas do purgatório no rasgo duma caixinha, e voltamos a subir a imensidão de escadas para ir à procura da camioneta. E foi no topo do arruado, já bem cansados e com pena de ver a festa a ficar para trás, que encontramos os compadres de Vilarinho que nos abraçaram surpreendidos por nos verem ali, porque nos conhecem bem e sabem que tanto eu como a minha Jacinta, nunca fomos de romarias!
   - Então compadre Manel (dizia-me ele surpreendido enquanto as mulheres mostravam uma à outra as compras que tinham feito) – olhe que o meu amigo era das poucas pessoas que eu esperava encontrar por aqui!
   - Olhe que lhe digo a mesma coisa compadre, pois nem eu contava cá estar. Nós viemos à novena e depois de cá estar é que resolvemos comer por aqui e ficar para ver a procissão. E olhe que em boa hora o fizemos, porque isto não era espectáculo da gente perder! Agora vamos embora que se faz tarde.
   - Não me diga que se vai já embora. Olhe que se ficou encantado com a procissão, lhe garanto que com o fogo da meia noite é que vossemecê vai ficar baradinho dos seus olhos.
   - Oh, isso fica muito tarde, e fogo a gente vê na nossa festinha da Senhora das Candeias que também não é coisa pouca:
   - Ó amigo compadre, vossemecê nem me diga uma coisa dessas! Olhe que sessão de fogo como a da romaria, ninguém vê desde o tempo do saudoso Belo Fogueteiro, e há mais de meio século Deus chamou aquele nobre homem para junto de Si. O que nós vamos fazer é comer um bife num restaurante, porque esta gente também tem que ganhar a vida. De seguida, vamos até à praça ouvir as bandas de música ao despique até à hora do fogo e no final da festa, metemo-nos no carro de praça e regressamos aos nossos lares. Bora lá aproveitar a vida enquanto o tempo nos permite, que o Inverno não tarda aí e quando ele chegar é que a gente não tem outro remédio senão meter-se dentro de quatro paredes!
   A minha Jacinta ainda barafustou dizendo que isso ia dar a des'horas e bife ainda tinha na bolsa do que sobrou ao almoço e o que queria mesmo jantar era uma sopinha no conforto da sua casinha. Além disso, queria ver se a bicharada estava toda recolhida. Mas recolhida e com as pias cheias tínhamos nós deixado pela manhãzinha e mesmo que arredássemos a casa, pela hora a que lá chegássemos, o Tyrone, um rafeiro manco em duas patas que a gente lá tem desde o dia em que o abandonaram à nossa porta, seria o único ainda acordado à nossa espera, pois toda a galinácea e rebanho já estaria a fazer meia-noite.
   - Pronto, perdido por dez perdido por vinte! (responde a Jacinta acabando por se convencer que ainda não era desta que se ia embora).
   E lá vai a verdade, ela estava mais entusiasmada com aquela festança do que eu, só que não queria admitir a ideia que ainda era mulher para andar em noitadas de romaria. Lá resolvemos acompanhar os nossos compadres. Atravessamos um recinto enorme cheio de carroceis, pistas de carrinhos e aviões, pessoas sentadas numas cadeirinhas penduravas por correntes voavam rentes à nossa cabeça que a Jacinta até deu um grito de tamanho susto que apanhou, comboio fantasma, poço da morte, barracas de matraquilhos, de tiros e outros jogos de sorte e o espaço que sobrava entre estes divertimentos todos estava tão à pinha de gente que a Jacinta, que até não é muito dada a grandes intimidades fora de casa, quis ir de braço dado comigo com medo que eu me perdesse! Conseguimos furar entre a multidão até umas escadas de pedra que subiam até ao mesmo local onde entramos pela manhã, o Terreiro do Lago, e dirigimo-nos a um restaurante que o meu compadre escolheu por ser de confiança dele. Sentamo-nos e logo apareceu uma rapariga com um papel e uma lapiseira a perguntar:
   - Ora então vão ser quatro bifes para esta mesa, não é verdade?
   Bifes tinha a gente comido ao almoço e ainda havia um bocado na bolsa da minha Jacinta, mas antes que a gente desse opinião o meu compadre adiantou-se:
   - Ora pode servir quatro bifes da rabada dum animal barrosã bem velho e gordo, que não há presigo melhor no mundo; ah, e não faça cerimónia no molho de cebolada, traga uma malga bem grande que ela volta bem limpinha p'ra cozinha!
   - Bifes comemos nós ao almoço e agora a mim bastava uma sopinha, compadre... (ainda tentou a minha Jacinta, mas a resposta foi pronta)
   - Romaria é Romaria, e isso de ter comido bife ao almoço não quer dizer absolutamente nada porque bife de romaria até se pode comer durante os nove dias da festa e até hoje ninguém enjoou! Portanto vamos comer cada nosso bife e no final uma fatia de melão de casca de carvalho para se cumprir a tradição!
   Bem, se o compadre estava assim tão decidido, a gente concordou e lá ficamos convencidos que íamos comer outra vez bife de romaria.
   A travessa não tardou a chegar, juntamente com uma caneca de verde tinto a substituir a que a gente tinha esvaziado enquanto dava corda à língua. Mas dar mesmo corda à língua era um charlatão linguarudo em cima duma camioneta; tinha um microfone pendurado ao pescoço e o raio do homem não se calou um segundo durante todo o nosso jantar: “e não paga cem, não paga cinquenta, não paga vinte, não paga dez... mas por apenas uma nota de cinco não leva um, não leva dois, não leva três... leva cinco pares de meias e ainda um guarda-chuva de doze varetas e mais uma navalha para enxertos e mais isto e mais aquilo....” ainda bem que ainda ficamos bastante afastados daquela lenga-lenga toda, que aquilo era um vir'ó-disco e toc'ó mesmo que se estivesse perto dos meus ouvidos, o bife não me ia cair lá muito bem!
   A confusão de gente a passar à volta do restaurante era enorme, mas durante todo o dia a gente foi-se habituando e até conseguimos repastar nas calmas sem que a conversa se desviasse daquela festa linda e grandiosa. O meu compadre contava que muito mais há para ver na romaria do que aquele Domingo nos mostrou. Falou-nos da procissão de velas na sexta-feira, uma cerimónia que deixa toda a gente arrepiada durante o mesmo percurso da procissão de anjinhos, onde participam bem mais de mil devotos que seguem o andor iluminado da Senhora do Porto d'Ave, todos com uma vela na mão que até parece um rio de fogo tão grande que a vista não consegue alcançar ao mesmo tempo o início e o fim.
   Falou-nos de outra procissão com um percurso bem mais curto, em honra da Senhora da Boa Morte, que nunca quer perder; realiza-se no Domingo anterior, no final da segunda novena, e vai desde a igreja da Senhora do Porto d'Ave até à capelinha da Senhora da Boa Morte, a tal que também tem um altar todo pintado a ouro. De seguida, o povo vai até ao terreiro dos divertimentos para apreciar os animais que os marchantes exibem antes de os enviar o para o matadouro. Dizia-me que gado daquele se vê em poucas feiras da especialidade. São dezenas de animais que são apresentados com tanta pompa que até parece que têm vaidade por ter sido seleccionados para a romaria de Porto d'Ave. Falou também de desfiles de cavalos, póneis e charretes, de concentrações de jipes, bicicletas e motorizadas.
   Ao todo são nove dias de festa que começam com o Brinde da Romaria, sempre à meia noite em ponto da Sexta-Feira antes da primeira novena, e nesse momento toda a gente se reúne na praça das músicas para levantar o cálice de licor e brindar ao início de mais uma romaria; é neste momento que a iluminação é ligada ao som e luz dum espectáculo de pirotecnia. A partir daquele momento, aquele recinto não volta a dormir até ao fogo de encerramento que nos estava a segurar ali. Nas noites seguintes há um festival de ranchos folclóricos, teatros, desfiles de moda, noitadas para os mais jovens com muita música onde o baile dura toda a madrugada, sobretudo nas duas últimas noitadas de Sexta e Sábado em que os jovens antes de se deitar, se chegam a misturar naquela praça com os fiéis que vão assistir à novena! Percebi que ele era dos que não perdia peta daquela festa e, enquanto o escutava, confesso que sentia inveja dele.
   A conversa esticava, o bife encolhia, até que os pratos ficaram limpos e foi quando comentei:
   - Isto é realmente uma iguaria de deixar a gente satisfeita e a chorar por mais!
   - Isso se calhar até é dizer pouco (respondeu-me o meu compadre); uma iguaria destas só mesmo na Romaria!
   - Só na Romaria? E então no resto do ano não se podem servir bifes como este?
   E lá começou o compadre de Vilarinho a puxar dos seus galões. Aquele e a minha Jacinta juntos,  a falar das missas e procissões e das farras e tradições, olhem que não deve ficar uma linha por dizer sobre aquela grandiosa romaria:
   - Sabe compadre, fora da romaria não há gado desta categoria para abater. Os melhores bovinos são escolhidos para ser servidos nestas centenas de mesas espalhadas pela festa, sejam eles de raça Minhota, Barrosã ou até Mirandeza; o que importa é que sejam bem gordos e nunca com menos de meia dúzia de anos! Depois temos a competição entre os marchantes, que é tal, que quem sai a ganhar é a qualidade; por fim, serve-se acompanhado com este molho de cebolada e batatas fritas aos palitos, e o resultado estava aqui na nossa mesa com este paladar sem igual como nós bem vimos, ou melhor, como nós bem comemos!
   - Essa parte já percebi, mas depois há este tempero especial e é aqui que está o segredo...
  - Qual segredo, qual quê (interrompeu-me); aqui o único segredo é ter produtos de qualidade e a receita está à vista de todos que o trabalho dos cozinheiros é feito na frente de quem quiser ver e aprender. Os bifes, sejam do vazio ou da rabada, desde que tenham a gordura nesta cor já bem carregada, são fritos, não muito fritos para não perder o paladar ao que são, em óleo ou azeite, ou até a duas coisas; de tempero, não podem levar mais que sal, alho e pouca pimenta. E a cebolada, este pitéu que lhe dá este toque especial, é frita no mesmo molho do bife e aqui acrescenta-se umas gotas de vinagre. Não há segredo nenhum a não ser a qualidade da carne e a mão de quem prepara este manjar digno da mesa dum rei. Como vê, é simples esta receita que já tem dois séculos ou mais, e é a culpada de dezenas de animais todos os anos terem a honra de ser bois de romaria!

   No final desta receita culinária do nosso compadre, a minha Jacinta, que o escutava atentamente, tirou da cesta a dúzia de cavacas que tinha comprado na afamada doceira de Cimo de Vila, que afinal eram quinze! Ela comentou que é normal que as dúzias daquela doceira nunca ser de apenas doze! Colocou-as na mesa, dizendo que uma jantarada daquelas merecia uma sobremesa, O compadre logo acrescentou que para se poder dizer com verdade que se comeu bife de romaria, na sobremesa não pode faltar melão de casca de carvalho e, sem ser necessário a gente pedir, a rapariga que nos atendia ainda chegava à mesa com quatro fatias, lembrando que era tradição. Mal olhou para a travessa, fez um gesto em sinal de aprovação e depois da primeira trincadela, dizia ele:
  - Este é mesmo de romaria, é dos que não fica a boiar se o deitar ao tanque; um melão com este pique é iguaria rara de encontrar!
   E lá teve que vir mais uma caneca para as cavacas, outra para o melão e outra para nós! Antes de nos levantarmos ainda aprendemos que os melões para serem bons como aquele, tem que bater no fundo do tanque cheio de água; já os que ficam a boiar na tona às vezes até os porcos torcem o focinho quando lhos deitamos na pia! Caneca vazia, de melão só sobrou as cascas que ficaram como folhas de couve de tão fininhas que as deixamos, conversa em dia, pedimos a conta que o meu compadre agarrou e não queria partilhá-la, coisa que eu nem a minha Jacinta admitimos até que ele lá se convenceu que aquilo tinha mesmo que ser contas à moda do Porto, ou melhor, à moda de Porto d'Ave, e foi então dividida a despesa porque a vida custa a todos e assim é que está correcto.
   Levantámo-nos e reparei que entretanto fez-se noite mas isso não fazia diferença nenhuma que luz era coisa que ali não faltava. Descemos mais uma vez a escadaria, voltamos a atravessar o terreiro dos divertimentos que continuava à pinha de gente de todas as idades que se mais pistas e carroceis houvesse, dava para todos ganhar a vida tal era a multidão que não deixavam um lugar de vago naqueles carrinhos, aviões, girafas e cavalinhos com tudo iluminado com lâmpadas de mais cores do que as do arco-irís e em menos de um minuto terminavam uma volta para trocar de passageiros. havia também umas tendas de matraquilhos e outros jogos e mesmo que a gente quisesse não adiantava porque não havia um que estivesse de vago. Noutras barracas jogava-se a sorte e ganhavam ursos ou bonecas que ofereciam às raparigas e noutras tentavam ganhar prémios através da pontaria com espingardas de chumbos. E depois de largos minutos aos encontrões com a multidão, finalmente os nossos pés pisaram o arruado com a arcaria toda iluminada que parecia que estávamos a entrar num túnel de várias cores e muita luz. Afastei-me uns passos para espreitar um grupo muito animado que me estava a deixar curioso e reparei que no meio daquela roda enorme cantava-se ao desafio ao som duma concertina. Descemos pelo meio das tendas que ocupavam ambas as bermas e, a meio do arruado junto da escadaria que dava para o terreiro dos melões, passamos por outro grupo de cantadores e aqui achei piada por ver uma mulher sem tento na língua a dar forte noutro cantador que ficava bem embaraçado com o povo à volta que atiçava e a ria-se ao som da música e do tinto que andava na malga de mão em mão e um homem, que tenho a certeza que àquela hora já nem sabia de que freguesia era, até me ofereceu um gole que recusei com a desculpa da minha figadeira!
   Dali já se avistava a praça onde duas bandas de música actuavam em despique. Chegamos lá e fiquei embasbacado; eu já tinha visto aquela praça de dia mas não podíamos imaginar como ela ia ficar toda iluminada à noite. Só visto como aquele baldaquino estava lindo, com luzes brancas a contornar todas as esquinas. Se alguém naquela festa estava realmente vestido de gala era aquele monumento! Ficamos a assistir a um espectáculo digno de se ver e ouvir. Os músicos eram tantos que quase não cabiam em cima dos coretos de onde saiam aqueles sons que encantavam uma multidão que preenchia cada palmo daquele recinto. No final, as bandas aplaudiram-se uma à outra e desceram para a praça onde tocaram a última música da noite, despedindo-se da Romaria enquanto a Romaria se despedia deles com palmas que não tinham fim.
   Entretanto, bateram as doze badalas e o espectáculo de pirotecnia que o compadre falava e nos prendeu naquele lugar maravilhoso até àquela hora, tardou poucos minutos para começar. Naquela noite o céu estava cheio de estrelas, aposto que estavam lá todas, como se tivessem combinado vestir-se de brilhantes para ver o fogo da romaria. E meus amigos, não demorou muito para que esse brilho fosse ofuscado pelo esplendor que se seguiu naquela praça. Aquilo abriu com três estrondos que, sem avisar, estouraram no ar despertando toda a multidão para um espectáculo como eu nunca tinha visto nada igual; a Jacinta disse que aquilo era fogo preso e eu só sei dizer que vi umas ventoinhas e rodas de bicicletas a circular e a chapinhar faiscas de todas as cores; quando parecia que ali não ia haver mais nenhuma surpresa, eis que no meio daquele espectáculo de luz e fogo cai um pano com a imagem da Virgem de Porto d’Ave com o menino no colo; era um altar lindo e a multidão encantada, batia palmas quando noutro apetrecho surgiram umas letras a arder onde se lia: "Avé Cheia de Graça". Mas aquilo ainda não era nada comparado ao que ainda falta ver e ouvir. Bombas, foguetes, girândolas, balonas e outras coisas que eu nem sei que nome têm, mas vos digo que tudo que alguma vez foi inventado na arte da pirotecnia, ali via-se a sair de toda a parte; por trás dos muros, do lago ao centro da praça, por trás do baldaquino, da escadaria que descia para o mosteiro subiam de ambos os lados uns foguetes que deixavam rastos de luz e cruzavam-se no ar, e naqueles céus parecia que chovia umas vezes ouro, outras vezes prata, vermelho, verde, amarelo e de todas as outras cores que há no mundo e olhem que se este espectáculo todo não durou uma hora, vos digo pela minha honra que bem perto lá andou.
   Foi um dia único e por várias vezes dei graças a Senhora do Porto d'Ave por ter aparecido o compadre de Vilarinho, pois encontrá-lo no meio duma festa com milhares de pessoas não foi apenas sorte; ali houve mais qualquer coisa e se não fosse isso, eu tinha perdido aquele espectáculo que terminou com uns estrondos tão grandes e todos seguidos que tenho a certeza que até o monte da Senhora da Graça tremeu. Estava assim encerrada a romaria daquele ano e a multidão batia palmas durante muito tempo antes de se começar a afastar. O meu compadre olhou para mim sem dizer nada, como se estivesse à espera que eu comentasse se era como ele tinha dito, e eu lá lhe disse o que ele esperava ouvir:
   - Foi uma grande sessão de fogo, sim senhor. O compadre tinha razão naquilo que dizia; até me sinto em dívida com vossemecê!
   Ele, sem falar, acenou com a cabeça como se quisesse dizer que nunca falha, e sorriu. Era muito tarde, passava já da uma da madrugada, e tanto eu como a minha Jacinta não estávamos habituados a tantas horas sem ver a cama. Mas digo-vos que nem por um segundo me arrependi de ter ficado ali até àquela hora. 
   A festa tinha chegado ao fim; enquanto esperávamos pelo nosso carro de praça, apreciei a multidão a vagar até que quase só restava gente que percebi que viviam por ali e conheciam-se bem uns aos outros.  Notava-se que se tinham divertido muito durante aqueles nove dias mas também tinham trabalhado e contribuído para realizar aquela festa sem igual, uma festa que não se faz sem muita gente a trabalhar para ela. Era visível algum cansaço, mas mais evidente era uma grande satisfação de quem pertence a uma terra que gosta de receber bem e tinham conseguido fazer isso mais uma vez. Vinham cada vez mais, homens e mulheres, rapazes e raparigas, eram de várias idades e juntavam-se no mesmo grupo, cada vez maior. Brindavam com copos de cerveja, cumprimentavam-se, abraçavam-se como se estivessem a comemorar uma vitória ou uma conquista. Falavam da romaria, só da romaria, de toda a romaria, como se já sentissem saudades dela. Falavam do que correu bem e do que queriam melhorar e percebi que já faziam planos para o próximo ano. Mas aquilo que me agarrou mais a atenção, foi a expressão daquelas pessoas que vivem num lugar tão maravilhoso e com tanto para dar a quem os visita. Daqueles que não tinham pressa de abalar daquela distinta praça em frente ao baldaquino iluminado, como se se recusassem a aceitar que a romaria tinha chegado ao fim, trago bem gravado na memória os seus rostos, rostos que mostravam o orgulho dum povo, um orgulho pelo seu santuário, pelas suas tradições, pela sua romaria. Nós voltávamos para as nossas casas e eles continuavam lá, no dia seguinte, na semana seguinte, durante o ano inteiro; eles sabiam que quando voltassem a acordar já não seria romaria, mas continuaria a existir Porto d'Ave e tudo o resto estaria igual; podiam voltar a beber na fonte do Chinês, ouvir o carrilhão de sinos, o órgão de tubos, ser acariciados pela brisa do rio Ave e respirar o aroma das tílias muito mais intenso ali que em qualquer outro lugar do mundo onde existem tílias; e podiam continuar a pisar aquele chão, a olhar e tocar em cada pedra daqueles monumentos, e por tudo isso sorriam... como sorriam!! Porque o maior motivo daquele orgulho estampado em cada rosto, não era outro senão por pertencerem a  esta terra bendita que vos tenho falado, que se chama Porto d'Ave.

FIM

(Tó de Porto d'Ave)