quarta-feira, 26 de novembro de 2014

36º Aniversário Grupo Desportivo Porto d'Ave

DEUS quer, o Homem sonha, a Obra nasce

     Aos 27 de Novembro de 1978, o Grupo Desportivo de Porto D’Ave torna-se o mais jovem clube da Associação de Futebol de Braga. Este foi um grande passo na vida da colectividade, mas não foi aqui que tudo começou. O Porto D’Ave nesta altura já era grande. Antes desta data, ninguém da nossa freguesia ficava em casa nos dias de jogo nos torneios que se realizavam em Castelões e Brunhais. Lembro-me de grandes tardes e manhãs de futebol nessa saudosa década de setenta como se fossem ontem. Na abertura dum torneio contra uma “potência” do futebol daquela altura, o Serafão, em que vencemos por 5 a 0. Também num jogo em Castelões contra o Gonça, quando antes do intervalo o resultado já era favorável aos “nossos” por 2 a 0, com ambos os golos apontados por Tuxa (da D. Laura) e de repente um “tornado” protagonizado pelos adeptos de ambas equipas impediu que o jogo chegasse ao fim. (também aqui ninguém nos vencia!!!). Aquela final contra o Travassos, em que vencemos por 2 a 1, sendo este o único golo sofrido em toda a competição. O Guardião quase imbatível desse torneio era o senhor Carlos Rufino, naquela altura “Caló”.

    Sempre que olho para a taça de campeões desse torneio, recordo todas as emoções que sentia. Haviam ainda poucos carros na freguesia, mas para acompanhar o Porto d'Ave as caravanas eram sempre enormes. As camionetas também eram necessárias para levar todos os adeptos e os que iam na carroça eram sempre os mais ruidosos. Haviam duas bandeiras enormes com quadrados pequenos e mal feitos que estavam sempre presentes, e o apoio à equipa era feito a cantar as lindas canções da nossa terra. O Porto D’Ave não era ainda federado, mas já era muito grande, e eu, ainda criança, olhava para os rapazes das outras freguesias cheio de vaidade, pois eu era de Porto D’Ave e eles não. Já se cultivava o orgulho Portodavense.

     Neste tempo, contavam-se histórias do passado que me fascinavam e me fazia compreender que a grandiosidade do Porto d’Ave já vinha de longe. Falavam de jogos em que iam a pé e descalços, e só calçavam as botas, quem as tinha, para jogar. O resultado era sempre o mesmo, os “nossos” ganhavam. Às vezes também perdiam, mas esses episódios contavam-se em dois segundos, as vitórias é que importava recordar repetidamente sem que nada ficasse esquecido.
     Enquanto escrevo estas linhas, recordo imagens de homens que já não estão cá a festejar os golos e as vitórias. Quando a taça era nossa, e era quase sempre, enchia-se de champanhe e todos bebiam por ela. A festa durava até ao dia seguinte. Apesar de se repetirem em cada torneio, aqueles momentos eram únicos. Enquanto a festa durava, estavam esquecidas as amarguras da vida que afectavam grande parte da população, pois eram tempos difíceis.

     Uma das razões que tornavam o Porto D’Ave mais vencedor que os adversários, era o facto de nessa altura já treinar todos dias, pois não havia um final de tarde em que a bola não saltasse no terreiro dos divertimentos até ao anoitecer. Todos estavam convocados, e depois dum dia de trabalho árduo, a ninguém faltava energia para dar o litro atrás da bola.

     E foi graças a todo este entusiasmo que um grupo de homens da nossa terra reuniu para passar à fase seguinte, e assim nasceu o Grupo Desportivo de Porto D’Ave. Presto a minha homenagem e deixo aqui os meus agradecimentos enquanto Portodavense, a estes homens e muitos outros, que sem que o seu nome saísse do anonimato, foram imprescindíveis na criação do nosso clube. Penso que todos estes homens há mais de trinta anos, já sabiam que estavam a criar este grande clube que tanto nos orgulha. Foram ambiciosos na aquisição dos terrenos que com dificuldade lá se foram pagando e que tão importantes foram para que se construíssem aquelas magnificas instalações. Os primeiros anos foram os mais difíceis, mas a união era tal que todas as barreiras foram ultrapassadas.

     Os jogadores do Porto D’Ave passaram a ser os ídolos das crianças da escola. No recreio quando jogávamos à bola, marcávamos golos à Guilherme e à Gito, dávamos cabeçadas à Quim Moreira, fazíamos fintas á Peão, carrinhos à Firo, passes à Santos, caneladas à Araújo, defesas à Chico Fininho, etc.etc..
     Há uma história que se passou na minha sala de aula que demonstra o significado que o Porto D’Ave tinha para as crianças. Um dia a professora D. Graça mandou-nos fazer uma redacção sobre o que tínhamos feito no último Domingo. Cerca de metade da turma escreveu sobre a difícil vitória no complicado campo do Cavêz ,em que houve invasão de campo quando o árbitro validou um golo de Nano, um chapelão ao guardião adversário. O resultado foi 1 a 2 a nosso favor. A professora quando corrigiu os nossos trabalhos, não acreditava que tantos miúdos de nove anos tivessem acompanhado o nosso clube tão longe, e achou que tínhamos copiado o tema. Com os desenhos e os trabalhos manuais passava-se a mesma coisa. Tanto a tinta da china, como em barro, nos têxteis ou em metal, tudo dava para fazer o emblema do Porto D’Ave.

     Nos primeiros anos a equipa de futebol sénior era a única a competir em toda a colectividade, mas com o passar dos anos foram-se reunindo esforços para que fosse possível ter escalões de formação, começando por uma camada de Juniores. Como os resultados eram positivos, outros escalões se foram acrescentando ao ponto a que chegamos há mais de uma dúzia de anos em que nos orgulhamos de ter todos escalões de formação onde também já escrevemos muitas páginas douradas, e mais recentemente o nosso clube torna-se ainda maior e mais bonito com a equipa de futsal feminino, onde na época passada conseguiram um brilhante título de Campeão Regional.

     Hoje, com quase duas centenas de jogadores de várias idades e ambos os sexos, o nosso clube já não é só de Porto D’Ave, pois são muitos os sócios e adeptos das freguesias vizinhas. Possuímos um dos melhores parques desportivos de todos os clubes do futebol distrital bracarense, pois não houve até hoje uma direcção que não o melhorasse. Fomos brindados recentemente com o tão desejado “tapete verde”, mas sonhamos ainda com um segundo campo e um pavilhão gimnodesportivo para continuarmos a somar êxitos nesta caminhada. Sem grandes saltos, passo a passo, o Porto d’Ave nunca parou de crescer, tanto no património como no plano desportivo, e assim irá continuar.

     A grandiosidade do Grupo Desportivo de Porto d’Ave é hoje reconhecida por todos, pois temos ombreado com clubes que representam cidades e sedes de concelho. Isto só é possível, porque a nossa camisola tornou-se de tal forma honrada, que muitos jogadores preferem vesti-la abdicando por vezes de avultados salários oferecidos por clubes que outrora tiveram nomes mais sonantes que o nosso. Também a nossa massa associativa tem características ímpares no apoio à equipa, e quando há mobilização para jogos mais importantes, os adeptos do Porto d’Ave tornam-se os melhores do mundo.

     O Porto d’Ave nasceu para ser grande, e já muito foi feito, mas há ainda muito a fazer para se tornar ainda maior, e todos temos o dever de continuar o trabalho iniciado pelos nossos pais e avós, que criaram este clube e o ajudaram a crescer.
    E a todos estes homens temos que demonstrar gratidão, mas principalmente aqueles de quem o nome não consta em nenhuma acta e muito menos numa lápide. Que todos que fazem parte do nosso emblema e os que a ele se juntarem no futuro, saibam que em cada palmo daquele recinto estão lágrimas e suor de homens, alguns de idade bastante avançada e debilidade física, mas quando do Porto d'Ave se tratava, conseguiam inventar forças para trabalhar com o intuito apenas de ver o nome do clube do seu coração cada vez maior. Sem esses, o Porto d'Ave seria muito mais pobre, e a maior homenagem que lhes podemos fazer, é seguir o seu exemplo, e nunca deixar de os recordar. A eles dedico estas palavras.

(Tó de Porto d'Ave)

"Enquanto os rios corram, os montes façam sombra e no céu haja estrelas, deve durar a memória do bem recebido na mente do homem grato."
(Virgílio)

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Massacre de Tiananmen - 25 anos

No dia 4 de Junho de 1989 foi cometido um dos mais horrendos crimes do sec. XX. Ironicamente, o palco de todo este terror, foi um local com o nome de Praça da Paz Celestial (Tiananmen), em Pequim. 

Esta tragédia, aconteceu na sequência de protestos que já decorriam há várias semanas, onde o número de manifestantes ultrapassava uma centena de milhar. Vinham de vários locais e eram de todas as classes sociais, unidos na luta contra a corrupção e repressão do partido comunista chinês, protestos esses que consistiam em marchas pacíficas pelas ruas de Pequim e também greve de fome por parte de alguns estudantes. 
Na madrugada de 4 de Junho de 1989, depois dum ultimato dado aos manifestantes para dispersar do local que foi corajosamente recusado por todos, a luzes de Pequim apagaram-se e os tanques avançaram para aquele episódio horrendo que ficou conhecido por: “Massacre de Tiananmen.”
Apesar dos inúmeros relatos que comprovam este horrendo crime que se estendeu pelas ruas nos arredores de Tiananmen, com os tanques a disparar contra os manifestantes já em fuga, ele tem sido continuadamente apresentado de forma muito distorcida e o número de vítimas é ainda um segredo de estado, mas há relatos que apontam para 7000 mortos e mais de 30 000 feridos. Desde então, o regime comunista chinês continua a empenhado em apagar esta chacina da memória das novas gerações, através da censura ao assunto em salas de aula e nos meios de comunicação. Cabe-nos a todos, lembrar ao governo chinês e ao mundo inteiro que esta vergonhosa atrocidade aconteceu mesmo, e fazer tudo para que nunca seja esquecida, para que não se volte a repetir.
No dia seguinte a este acto covarde, houve um novo episódio dum acto heróico, quando um homem sozinho tentava impedir o avanço de uma fileira de tanques de guerra. Também a identidade deste manifestante nunca foi confirmada, apesar da sua fotografia ter conquistado muitos prémios e ser uma das mais conhecidas em todo mundo. Este herói, que é conhecido por “Homem Tanque” ou “Rebelde Desconhecido”, foi eleito pela revista 'Time' como uma das 100 pessoas mais influentes do sec. XX, numa lista liderada por Albert Einstein.
É reconhecido que a China deu alguns passos nos Direitos Humanos desde esta tragédia, mas continuam ainda a ser cometidos muitos crimes relativamente a este assunto, como a escravidão infantil ou as 'gaiolas' para os mendigos. No entanto, o seu peso na economia de todo mundo permite que estes governantes cheguem a qualquer nação, sobretudo da Europa, e serem recebidos com vénias e os mais respeitáveis tratos, como se das mais idóneas pessoas se tratassem. Enfim...quando o dinheiro fala mais alto!!!!


sábado, 26 de abril de 2014

Rodrigo Soares














“Rodrigo Soares em grande plano”

Foi este o título do artigo “destaque” no Correio do Minho na edição de 20 de Abril.


Rodrigo Soares é um miúdo nado e criado bem no coração de Porto d'Ave. É filho do Chico e da Gabi, actualmente conta 12 anos e está a cumprir a terceira época, no escalão de Infantis, ao serviço do Sporting de Braga. Antes vestia a camisola do Grupo Desportivo de Porto d'Ave, alinhando na equipa de Benjamins durante duas épocas, que foram suficientes para que as suas exibições fizessem eco nos responsáveis pela formação dum clube que nas últimas duas décadas formou três guarda-redes da selecção de Portugal.

No IV Torneio de Páscoa, que a Escola Academia Sporting de Palmeira tem vindo a organizar e que este ano se realizou no dia 19 de Abril, nos seis jogos que a sua equipa disputou, alinhou durante três partidas e meia sem que a festa do golo  fosse sentida uma única vez por qualquer adversário. Os 'Benjamins' do Sporting de Braga, depois de, na fase de grupos, terem terminado uma partida com o placar em branco para os dois lados contra o Benfica de Braga e levar de vencidos o Fafe, Sporting de Palmeira e Taipas, ultrapassaram o Pevidém na meia-final e sagraram-se campeões contra o Varzim, onde a arte e engenho desta equipa se agigantou perante poderio físico do adversário, que apesar de serem mais novos um ano que os vice-campeões, os pequenos 'Guerreiros' não se deixaram intimidar e marcaram três golos enquanto a sua baliza estava fechada a sete chaves pelo guardião Rodrigo..  
Na cerimónia da entrega dos troféus, este miúdo de Porto d'Ave, subiu ao palanque nada mais nada menos que quatro vezes, onde foi chamado por fazer parte do "Melhor Sete", da equipa vencedora, e em termos individuais o seu nome soou por duas vezes nos altifalantes quando foi anunciado o nome do "Melhor Guarda-Redes" e também do "Melhor Jogador" da competição.

O Rodrigo é apenas um miúdo que gosta de futebol, sobretudo da posição onde alinha, e calçar as chuteiras e as luvas de guarda-redes é a melhor parte do seu dia. Trata a sua baliza como um tesouro e encara a bola como se de um invasor indesejado se tratasse. Voar e rastejar são apenas algumas das armas que utiliza para cumprir a sua missão, e ver a bola a bater nas suas redes é o seu maior pesadelo.Tem consciência que a sua missão é difícil, até porque não poupa elogios aos seus colegas de equipa que alinham na mesma posição e que também tem dado provas de enorme potencial, mas todos estão na idade dos sonhos, e para já, só tem que continuar a divertir-se, aprender e acreditar que o seu talento e muita dedicação lhe poderão proporcionar a sua realização.
Parabéns Rodrigo, por esta distinção, e continua a ser cada vez mais o mesmo Rodrigo.


"Nós somos feitos do mesmo tecido com que são feitos os nossos sonhos"
(William Shakespeare) 





















segunda-feira, 14 de abril de 2014

Gabriel Sousa brilha no Concurso Literário António Celestino

   Gabriel Sousa, conquistou terceiro lugar no concurso Literário António Celestino, na classe "2º Ciclo", com uma história real onde desabafa o lhe que vai na alma, abordando um tema pertinente onde tantas outras crianças se podem rever no trabalho que apresentou.
   O Gabriel é um miúdo com onze anos a frequentar o 6º ano da escola EB 2,3 de Porto d'Ave. É também atleta do G. D. Porto d'Ave, alinhando na equipa de Infantis, onde trata a bola por tu, mas o seu talento não se esgota com as chuteiras no pés, e desta vez foi com a caneta que resolveu brilhar, apresentando uma história relatada na primeira pessoa, onde deixa o leitor dividido entre o fascínio e a ternura com que este pequeno/grande autor nos contagia.

Ser filho de emigrante

Por culpa da crise meu pai teve de emigrar. No início, não senti muito. Era diferente! Mas com o passar do tempo as coisas foram ficando mais difíceis. Comecei a sentir a falta dos seus abraços, das suas brincadeiras, das suas recomendações… 

O futebol na televisão parece não dar a mesma adrenalina, as corridas de motas parecem menos disputadas…
Podemos falar pelo Skype, é certo, mas não é a mesma coisa! É tão diferente que às vezes nem sei o que lhe dizer. 
Eu sei que ele foi para poder dar-nos uma vida mais estável. Entendo que tem de ser. Mas que é duro, lá isso é.
A minha mãe coitada, anda sempre a correr. Leva-nos à escola, vai nos buscar, leva-nos aos treinos de futebol e aos fins-de-semana aos jogos… Ela não se queixa mas eu sei que também não deve ser fácil para ela fazer tudo sozinha. Se tivessem cá os dois, sempre poderiam dividir tarefas, seria mais fácil.
Sei que nesta altura, aqui em Portugal, há muito desemprego e por isso é necessário os adultos procurarem trabalho noutros países para sustentar e dar uma vida melhor à sua família. Mas acho que os nossos políticos deveriam tentar evitar que as pessoas emigrassem para não separar as famílias, principalmente os pais dos filhos porque isso custa muito. Não sei se os presidentes se apercebem destas coisas… 
Quando chegam as férias, parece que tudo volta ao que era antes. Tenho o meu pai, a minha mãe e o meu irmão. Divertimo-nos muito mas são só três semanas e tudo recomeça.
Para o meu pai também não deve ser nada fácil estar longe de nós, eu sei… Trabalha muito mesmo quando está muito frio, depois chega a casa, que é só um quarto, e não tem ninguém para falar, para brincar ou até para lhe chatear a cabeça. Sempre que nos liga, quer pelo telefone, quer pela internet, faz de conta que está tudo bem mas lá no fundo, no fundo, eu sei que não está e só não nos diz para não ficarmos tristes. Mas ficamos á mesma…
Espero que esta situação seja passageira e que em breve volte a ter a vida de antes. A vida em que todos os dias tinha o meu pai perto de mim para me beijar, abraçar, acarinhar e até ralhar… Mas pelo menos estava cá.
É difícil ser emigrante, mas não é nada fácil ser filho de emigrante."


(Gabriel Sousa)

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Suzete Fraga - Vencedora Concurso literário António Celestino 2013


  Suzete Fraga é uma pessoa que vem habituando aqueles que tem acesso ao que escreve, a não ficarem surpreendidos pela genialidade que demonstra numa área tão difícil de ser notada como é a literatura, onde deixa bem claro um enorme talento dividido entre a criatividade da mensagem e a forma como a estende no papel, onde prende quem lê desde o primeiro parágrafo até ao último ponto.
  Não gosta de aparecer na primeira fila, mas a simplicidade não lhe rouba a magia que tem no bico da esferográfica, e se este ano apresentou um trabalho merecedor dos maiores elogios, com o título "Tortura Silenciosa" foi no ano passado que surpreendeu os mais desatentos, quando o seu nome soou ao ser anunciado o vencedor  do Concurso Literário António Celestino 2013, na classe 'Público em Geral', com um conto cujo título é " De que é feita a Luz"

E para que não haja dúvidas nas minhas palavras, publico aqui os dois contos, e desejo a todos uma boa leitura: 

De que é feita a luz?

O dia despertou misteriosamente, envolto num nevoeiro cerrado. Aquela camada densa ofuscava a claridade matinal, sendo impossível adivinhar o tempo que faria naquele sábado.
Meio atordoada, agarrei-me à rotina do costume; duche, pequeno- almoço e os afazeres domésticos. Enquanto isso a televisão pigarreava as desgraças habituais, ou era a crise, ou um avião que caiu, um terramoto não sei onde… enfim, nada que fizesse aquecer a alma depois de mais uma semana de trabalho igual a tantas outras.
Os gestos mecânicos do dia-a-dia tinham-me deixado num estado amnésico. Esquecera-me de como era ficar parada a ver um pôr-do-sol. Já não prestava atenção ao chilrear dos passarinhos mal despontava a alvorada. As quedas de água do rio que passava ali perto, há muito que tinham deixado de transmitir tranquilidade, na verdade acho que já nem as conseguia ouvir.
Farta de mim mesma, peguei nas chaves do carro e saí. Não tinha nenhum destino traçado, talvez nem saísse dali. Ficaria quieta a ouvir música. Ao fim de dez minutos, a saltar de emissora em emissora decidi finalmente arrancar. Precisava de ver gente, de sentir calor humano, de dar um abanão na minha vidinha rotineira.
O centro da cidade pareceu-me uma boa opção, cheio de movimento, mil e uma maneiras de passar o tempo e sensações novas para experimentar.
Nem cheguei perto. Havia percorrido um ou dois quilómetros quando uma senhora idosa me chamou a atenção. Estacionei um pouco mais à frente e pensei em algumas palavras para meter conversa.
A senhora estava ajoelhada, de olhos postos na imagem de São Cristóvão.
Uma vez ao pé dela não consegui proferir uma única palavra. Ajoelhei-me também, como que solidária com o sofrimento alheio e rezei por ela. Queria que as minhas orações lhe atenuassem a dor.
Algum tempo depois decidiu quebrar o silêncio e perguntou:
_Também perdeu alguém?
_Oh, não! Respondi. _Estava à procura de algo.
Fiquei a pensar naquilo. Se tinha perdido alguém, porque vinha para ali, em vez de estar junto do túmulo do seu ente querido?
O nevoeiro teimava em não arredar pé e já estava a entranhar-se nos ossos. Sugeri, então, que descansássemos um pouco no carro e depois poderia dar-lhe boleia até casa.
_Para casa não, por favor! Cada canto, cada objecto, faz-me lembrar que o tempo se esgota como a areia de uma ampulheta.
_Bem, se há tempo, há esperança. Alguma coisa deve poder fazer!
Com a voz trémula foi desabafando…
_Sabe, o meu Simão sofreu um acidente de automóvel. Ficou em coma desde então e, amanhã, as máquinas serão desligadas. Não sei o que fazer, uma mãe não está preparada para aguentar tamanha dor. Queria poder trocar de lugar com ele.
_Compreendo o seu desespero, ainda assim, acho que no seu lugar, manteria a esperança até ao último minuto. E é isso mesmo que vai fazer! Vai para junto dele, segure-lhe a mão e fale-lhe com o coração. Diga-lhe porque tem de voltar, o que ainda falta fazerem juntos. Recorde-lhe os bons momentos que passaram, as dificuldades que venceram, e sobretudo, o quanto ele é amado. Às vezes basta uma voz familiar, um gesto, para que o milagre aconteça. Se não resultar, fique grata por cada minuto da sua existência, por não ter ficado nada por dizer, por ter tido oportunidade de se despedir...
Chegámos ao hospital. À medida que se aproximava do quarto, as pernas ficavam mais bambas. Podia ouvir o seu coração aflito, batendo descompassadamente.
Não sei como arranjou forças para caminhar. Eu fiquei especada no corredor. O cheiro a desinfectante e todo aquele silêncio mórbido deixaram-me paralisada.
Vivemos, fazemos planos a longo prazo e não temos noção de como a vida é frágil. Num instante, absorvidos pelo trabalho, no minuto seguinte, dependentes de máquinas para respirar.
E se fosse eu, estaria preparada para partir à pressa?
Teria uma bagagem digna de se ver ou, tinha-me limitado a ver o tempo passar?
Iria lutar como um touro, por mais um dia que fosse ou, deixar-me-ia levar sem dar luta?
Estaria sozinha ou, haveria alguém a rezar por mim?
Seria lembrada? De que modo iria ser recordada?
De repente, a minha mente foi bombardeada com questões para as quais, eu não tinha resposta.
Respirava, é certo, mas isso até uma máquina conseguia fazer! Qual era o meu papel no mundo, teria nascido tão insignificante ao ponto de ser uma inútil?
Subitamente, vejo um entra e sai de batas brancas e os olhos daquela mulher a jorrar água, parecia as Cataratas do Nicarágua.
Foi o Simão. Sentira o frio da medalha de São Cristóvão e encontrara o caminho de volta.
Aí respirei de verdade, pensei estar a receber oxigénio pela primeira vez na vida.
Cá fora, o nevoeiro dissipara-se para dar lugar a um lindo dia de sol, bem como a escuridão que me envolvia.
Os acontecimentos desse dia mudaram para sempre o rumo da minha vida. Ganhei uma nova família e comecei a fazer voluntariado nos cuidados intensivos, juntamente com a dona Aurora, a mãe do Simão. Há demasiadas pessoas à procura de uma luz ao fundo do túnel; se estiverem acompanhadas, é bem mais fácil encontrá-la.
Os dias do Simão são agora mais calmos. Trocou a advocacia pelo turismo rural. O negócio prosperou bastante, graças aos cozinhados da dona Aurora e aos produtos provenientes da quinta.
Porém, o crescimento não se ficou só pelos negócios. Matilde está grávida de oito meses! O jovem casal escolheu o nome de Cristóvão se for menino e Vitória, se for menina.
Eu, como madrinha, não poderia estar mais de acordo!



(Suzete Fraga)

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Tortura silenciosa


Se ela soubesse o que sabe hoje, não teria feito comentários infelizes sempre que lia ou ouvia notícias sobre violência doméstica. Não teria apelidado as vítimas de pobres de espírito. Não teria dito: “havia de ser comigo”. Não se atreveria a achar que se apanhavam é porque gostavam; não tinham as luas todas, de certeza.
Estava a anos luz de poder imaginar o sofrimento a que essas pobres almas estão sujeitas. Era impensável que um ser humano pudesse ser maltratado, humilhado, reduzido a nada e, ainda assim, ter a capacidade de desculpar, de minimizar os danos, de perdoar vezes sem conta.
Se soubesse... Esta história seria diferente.
Era uma manhã como outra qualquer: a caminho da clínica veterinária, música aos berros e dedos a tamborilar no volante, seguindo o ritmo de Madness_ o melhor tema dos Muse, na sua opinião.O telemóvel toca; àquela hora só podia ser uma urgência, portanto: toca a atender. O Bambino do Sr. Tomás voltou a saltar a vedação de arame farpado, o maroto. De tão concentrada que estava nem se apercebeu da Operação Stop, junto à rotunda. Institivamente, atira o telemóvel para os bancos de trás e claro, semelhante proeza só podia resultar numa repreensão daquelas; nem o diabo se lembraria de tanto!
 Mas o que é que importa um rombo na carteira quando se tem à frente um metro e oitenta de farda, olhos cor de azeitona e bronze a fugir para o chocolate?
Sentia as asas de mil borboletas a roçar no estômago. A sua intuição dizia-lhe que o sentimento era recíproco afinal, mostrou particular interesse pelos dados pessoais e combinou uma hora para passar na esquadra, mais tarde.
Mal podia esperar...
Uma vez na clínica, esclarece o motivo do atraso à sua sócia e amiga confidente.
_ Vamos que te sai um tarado na rifa?_ alertou-a. Um com stress pós traumático ou com a mania da força bruta... tu vê lá!
Não. Não estava a ouvir; o homem podia ser o Bin Laden em pessoa que não faria a menor importância. O amor tem destas coisas.
À hora marcada comparece: toda aperaltada, sem a bata branca que habitualmente envergava durante as horas de expediente. Tanto aprumo e tantas expectativas e o que vê? Um velho, gordo e barrigudo, ainda por cima, mal humorado.
_ Bolas, cento e vinte euros para o lixo e nem tenho direito a brinde!
Frustada e decidida a esquecer o assunto, lá regressou ao trabalho... Se calhar é uma nova táctica da PSP: contratam sósias do Brad Pitt e do George Clooney para as multas não serem tão dolorosas, à primeira vista.
Dias depois...
Domingo: às dez e meia toca o telemóvel do trabalho, ninguém merece! De todos os inconvenientes que a profissão acarreta, este era o pior: disponibilidade total, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas. Passou na clínica, levou alguns fármacos para intoxicações alimentares, dado que os sintomas indicavam uma possível gastroenterite. Chegou ao local, seguindo o GPS, já que ela tinha um péssimo sentido de orientação. Enquanto aguardava que lhe viessem abrir a porta, calçou as galochas e prendeu o cabelo com um elástico; uma perfeita totó! Sim, deve ser essa a palavra certa... O “garanhão” que a deixou pendurada na esquadra estava ali; lindo de morrer, mesmo à civil e ela... de galochas!
Esforçando-se por manter uma postura profissional perguntou pelo paciente. Não podia ser aquele labrador frenético, sempre aos pulos e de cauda a abanar de contentamento.
_ Na verdade, parece que melhorou bastante entretanto mas, já que cá está, pode fazer-lhe um check-up, por via das dúvidas.
O falso doente cooperou muito bem com a doutora, menos cooperante estava o Átila, um dobermann, a espumar pela boca e a exibir a sua dentição assassina... “ Não há cães maus, maus são os donos. Não... há cães maus, os donos é que não”. Fogo, este homem tolda-me o discernimento!_ pensava ela. Felizmente, a consulta limitava-se ao Pombo (o labrador) este sim: dócil e brincalhão. Com um estalar de dedos, o Átila ficou estático, não voltou a mexer um músculo, sequer. Estava a perturbar o grande momento_ o verdadeiro motivo da chamada_ a declaração do ano! Seguiram-se mensagens, flores, jantares, mais encontros, cama, mais mensagens (não necessariamente por essa ordem). Meia dúzia de meses depois já dividia as gavetas, bem como a casa de banho: duas escovas para os dentes, máquina e creme de barbear, aftershave, etc.
Viveram um conto de fadas até o Sr. Agente fazer questão de oficializar a união, na igreja, cinco anos mais tarde. Selaram a união com o anel, jurando diante de Deus, amor e fidelidade até que a morte os separasse.Um dia de sonho, o sonho de qualquer mulher; precisamente o dia em que se vislumbra um futuro cor-de-rosa, sem a mais pequena nódoa de tristeza. O plano maquiavélico, delineado ao mais ínfimo pormenor, estava em marcha; anel no dedo: propriedade minha. Ponho e disponho como bem entender, literalmente.
Subtil, como uma raposa começa a arquitetar o afastamento da vida profissional e social da mulher. Argumentos bem estruturados tipo: “Não precisas de trabalhar, ganho o suficiente para nos sustentar” ou “Esquece os jantares de mulheres, quero-te só para mim”.
            Quando se apercebe é tarde demais, está numa jaula e o pior… é que permitiu que a enjaulassem; barra por barra, todas elas com permissão.
            Não sabia muito bem quando fora a última vez que teve contacto com o exterior. Ocasionalmente, acompanhava o marido, ele gostava de exibir o seu troféu amestrado. Fora essas saídas precárias, não havia nada digno de registo, até as compras eram efetuadas sob a vigilância apertada do “paizinho”.
Um dia, enquanto ele estava no duche, ligou o computador e distraiu-se a pesquisar um tratamento inovador para a deuteranopia_ uma anomalia da visão que interfere com a cor verde; licença sem vencimento não significava propriamente estagnação de conhecimentos.
_ Demoras? _ Ouviu-o a perguntar.
_ Não, mais cinco minutos.
Quais cinco minutos quais quê? Irrompeu escritório dentro, bateu-lhe com a cabeça no computador. De seguida arrastou-a pelos cabelos até ao quarto, usou-a como quem usa um boneco de vodu e por tê-lo feito esperar desligou o aquecimento e algemou-a ao radiador, a noite inteira. Não lhe adiantaram de nada as lágrimas, as súplicas ou os pedidos de desculpa, quando recuperou os sentidos já o sol ia alto. O covarde retirou-lhe as algemas e disse:
_Não saias de casa.
A primeira reação, mal ouviu o carro a arrancar foi juntar algumas roupas e pôr-se a milhas. Porém, o ordinário antecipara-lhe os movimentos: as chaves do Audi tinham desaparecido, o telemóvel estava submerso em água dentro de um copo, o computador destruído. Deixou ao menos o comando do portão. Bonito… até esse pormenor foi pensado de modo a tornar a situação mais cómica, para ele. Cá fora, o Átila vigiava obsessivamente a porta _deve tê-lo ido buscar ainda de noite. Jamais passaria por ele e, gritar no meio do nada, também não serviria de muito. Durante dois dias, não entrou em casa. Passava por lá, sim, para alimentar a sua máquina assassina, altamente treinada, por sinal. Ignorou o bife com tranquilizante. Uma tentativa frustrada para o distrair, nem sequer pestanejou, o raio do cão.
            Ao terceiro dia, sempre se dignou a dar um ar de sua graça, embriagado de tal maneira que nem se incomodara a limpar as marcas de batom da cara…
            Só queria acordar daquele pesadelo. Completamente perdida, não sabia o que pensar. Se calhar a culpa era dela; devia estar mais atenta às necessidades do marido, mimá-lo mais, não o provocar…
            E tentava com todas as forças: amava-o por demais e quando se ama vence-se qualquer obstáculo, achava ela.
            A tristeza provocava-lhe um aperto no peito e ia aumentando, obstruindo a garganta. Ocasionalmente conseguia ingerir uns goles de água_ uma exigência do organismo para evitar falência. Só queria deixar-se ir, que a dor acabasse de vez.
            _Podíamos ir à missa… que dizes? _ Sugeriu-lhe a medo.
            Precisava de fazer as pazes com Deus, buscar consolo, ajuda Divina… qualquer coisa.
            _Vai tu, mas não demores! Vós, mulheres, deveis pensar que tendes o rei na barriga. Vá, vai… desaparece!_ disse-lhe ele em tom áspero.
            Na igreja só repetia: Deus acaba com o meu tormento. Deus acaba com o meu tormento… Não ouviu as leituras, nem o sermão do padre. Soube que a missa estava acabada quando os bancos foram ficando vazios novamente. No banco de trás, uma amiga confirmava as suas suspeitas; o vestuário não cobrira todas as nódoas negras e a porta do frigorífico era incapaz de fazer tal coisa. Sem qualquer aviso dirigiu-se à esquadra para apresentar a sua denúncia. Violência doméstica é um crime público. Qualquer cidadão pode e deve denunciar estas situações. Quem tomou nota da ocorrência deu “andamento ao processo” com um telefonema de aviso para o colega Silva. Num momento, estava prestes a servir a vitela assada, no momento seguinte encontra-se no hospital com aquele ser desprezível a beijar-lhe a mão, a que não estava engessada, lavado em lágrimas de crocodilo. Cada lágrima que lhe caía no corpo era como ácido a corromper-lhe a carne. E a conversa de chacha provocava-lhe náuseas. Não sabia como viver sem ela? Pois, em quem iria bater durante o internamento hospitalar? Sim, maxilar, punho e duas costelas fraturadas requerem internamento hospitalar. Que chatice!
            Porém, no meio de tanto azar… uma nesga de sorte. Durante uns tempos estaria segura; rodeada de médicos e enfermeiras, o pior que podia acontecer era uma reação alérgica provocada pelos inúmeros ramos de flores_ tanta flor, só nos cemitérios em dia de Finados. Foram nove semanas repletas de promessas, desculpas e mais promessas. Caía tudo em saco roto até que houve uma (a mais grave de todas) que fez uma faísca tão grande, mas tão grande, que reanimou os poucos neurónios sobreviventes: “ Vou fazer-te tão feliz quando me deres um filho!” _ Prometeu com safadeza.
            _ Um FILHO?! Não, não estás a entender. Eu vou contar-te um segredo; não sei se já ouviste falar em pentobarbital… pois bem, certo dia fui chamada para ajudar um cavalo, estava ferido de morte. O dono, desolado, implorou que lhe acabasse com o sofrimento. Foi o que fiz. A seringa ainda ia a meio e já não havia ritmo cardíaco. Potente, não é? Agora, mas agorinha mesmo, vais à MINHA CASA e sublinho MINHA CASA e retiras todos os teus pertences. Levas o Átila (o desgraçado não tem culpa do dono que tem) mas leva-o. Limpa muito bem o teu ADN nojento das minhas coisas e desaparece. Leva também a argola que me enfiaste no dedo, os álbuns do casamento… tudo! Ah, deves-me um computador e um telemóvel. Não te preocupes com as chaves do Audi, eu mando fazer outras, tanto para o carro como para casa; quero fechaduras à prova de vermes. Diz-me, percebeste tudo? Ou precisas de um desenho com a letra P?
             Podia ter acabado de assinar a sua sentença de morte, mas não importava. Soube tão bem! Soube mesmo bem!
 Felizmente, os ratos sabem quando devem abandonar o navio. Foi a última vez que o viu. Eclipsou-se no ar, ele e os dois camaradas que “tomaram nota da ocorrência”.
            Ela, sem nome, (podia ser: Marta, Maria, Joana, Albertina, Bárbara…) era apenas um número, mais um, que jamais voltaria a ter uma vida normal.
             O cabelo passou a ser curto, cinco centímetros, no máximo. Dormir? Só com uma almofada por cima da cabeça, a protegê-la. Telemóveis? Nem que a casa estivesse a arder voltaria a atender um, ao volante.

Príncipes encantados? Isso… Isso são histórias da Carochinha.

(Suzete Fraga)

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Participação de Mariana Vale no Concurso Literário António Celestino




'A Cartola das Mil maravilhas” é o título do trabalho realizado por Mariana Vale, uma menina de 11 anos que começa a não ser surpresa quando o seu nome brilha, e até já foi distinguida a nível nacional deixando-nos a todos cheios de orgulho, sobretudo aos seus pais 'babados', e mais uma vez aparece em grande com uma excelente participação no Concurso Literário 'António Celestino' 2014.


A cartola das mil maravilhas

      O meu avô António tinha uma antiga loja de magia na baixa da cidade. Era muito velha e poeirenta e ele era o único que lá trabalhava. Faleceu recentemente, há aproximadamente três anos. Foi completamente devastador!
Antes de falecer, andava à procura de outro gerente. Fez entrevistas a várias pessoas, mas só uma tinha as capacidades e qualidades necessárias para aquele trabalho. Ninguém o conhecia muito bem, de onde vinha ou a sua história de vida. Contudo andei a investigar. Numa noite de lua cheia, segui-o até a um beco escuro, e descobri que ele não era uma pessoa vulgar, era especial. Saltou para dentro da sua velha cartola e foi como o jogo do cuco: ora cá estava, ora já cá não estava! Fiquei boquiaberta! Como é que tal coisa era possível?! Mas continuei a segui-lo.
      Uau! Foi a única palavra que eu arranjei para descrever aquele mundo lindo, maravilhoso! Se o meu queixo não estivesse preso, já tinha caído ao chão! Ai! Era tão perfumado e mágico… havia muitas estrelas, muitos animais... Era o mundo perfeito! Cheio de baloiços, de diversão e de outras crianças com quem eu podia brincar. Mas como é que tudo aquilo cabia dentro de uma cartola velha e rasgada? Foi então que vi um castelo gigantesco! Parecia de princesas! Até havia um dragão que cuspia fogo! Ao explorar aquela terra mágica, encontrei um outro mágico. Ele era muito diferente do novo gerente. Este mágico era divertido e engraçado como um palhaço, enquanto o outro era muito contido e reservado. Avisou-me para ter cuidado pois aquele mundo tinha muitas artimanhas preparadas. Eu tive sempre muito cuidado, mas como diz o ditado: todo o cuidado é pouco!
      De repente, apareceu-me um passarinho que parecia muito normal até começar a falar como um ser humano! Que mundo misterioso! Ele chamou os seus companheiros e quando dei por mim, estava a voar…a voar muito alto, a uma altitude de mil maravilhas! O que estou eu a dizer?! A uma altitude de mil metros. Sentia-me a “Alice no país das maravilhas”, mas em vez de perseguir um coelho, era um bando de pássaros que me perseguia a mim!
      De repente o chão começou a tremer, e num ápice… puff! Já estava fora da cartola. Fui imediatamente para casa contar aos meus pais e à minha irmã, que estavam raladíssimos comigo, o que se tinha passado. Mas eles não acreditaram.
      A notícia espalhou-se, e foi passando de boca em boca. As vizinhas beatas, todas a cochichar, comentavam o quão maluca eu era. Que descaramento! Só sabiam meter o nariz onde não eram chamadas!
      Ninguém acreditava em mim e toda agente me olhava de canto. Sentia-me frustrada, pois sabia que tinha razão!
      Só depois me apercebi que um mundo perfeito só existe nos sonhos ou nas histórias que os adultos contam às crianças… tudo o que eu vivera tinha sido uma mera ilusão, mas ainda hoje acredito que há uma cartola das mil maravilhas.


(Mariana Vale)

Carolina Vale distinguida no Concurso Literário António Celestino

 'É Tudo Uma Questão de Fé” é o título do trabalho realizado por Carolina Vale, que alcançou o 2º lugar na categoria 'secundário', no Concurso Literário 'António Celestino' 2014.


É tudo uma questão de fé


            “A minha fé, nas densas trevas, resplandece mais viva.”, já dizia Mahatma Gandhi. Sempre me lembro de ouvir a minha mãe citar essa frase, e desde cedo percebi o sentido que tem na nossa vida. Por vezes, somos movidos pela fé, parece que as coisas só acontecem se acreditarmos nelas, e eu sou uma prova disso.
            O meu nome é Inês e vou contar-vos a minha história de vida. Nasci na primavera de mil novecentos e oitenta e sete, tenho agora vinte e sete anos, vivo em Coimbra, sou morena, meço cerca de um metro e sessenta centímetros, sou magrinha, e sou uma pessoa muito extrovertida. Tenho dois irmãos, a Joana e o Martim, que são gémeos e têm vinte e quatro anos. São morenos também, mas mais altos do que eu.
            É mesmo muito bom ter irmãos, pois são pessoas com quem podemos contar sempre e que acabam por ser pedaços de nós mesmos. Na adolescência era complicado darmo-nos tão bem como hoje, todos queríamos as mesmas coisas e chateávamo-nos por tudo e por nada, mas hoje, não vivemos uns sem os outros.
            Quando os meus pais me disseram que ia ter duas pessoas com quem brincar em casa, fiquei radiante! Na altura não tínhamos tantos brinquedos como as crianças de hoje têm, mas tínhamo-nos uns aos outros, e aos nossos vizinhos, que brincavam sempre connosco, pois tínhamos mais ou menos a mesma idade.
            Andei na escola primária e no ciclo ou ensino básico, como lhe chamam agora. No secundário estudei Ciências e Tecnologias, que sempre foi uma área que me despertou muito interesse. Entrei então para o curso de Farmácia Biomédica, na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra. Tirei a licenciatura e o mestrado e comecei logo a trabalhar numa farmácia perto de casa.
            Conheci o Rodrigo, o meu namorado, no primeiro ano da universidade. Reparei nele logo na primeira semana, era impossível não reparar. O Rodrigo é alto, moreno, magro e tem olhos castanhos esverdeados. A meio do primeiro semestre tivemos de fazer trabalhos de grupo e, para sorte minha, ele ficou no meu grupo. Foi aí que tive a oportunidade de o conhecer melhor, e passamos a andar mais vezes juntos. Almoçávamos juntos na cantina e juntávamo-nos às vezes ao fim da tarde na pastelaria “Dona Margarida”, perto da universidade, para conversar.
            No último ano do curso o Rodrigo disse-me que quando terminasse o curso ia para Espanha, para perto da família. Fiquei completamente em choque… tinha-me aproximado tanto dele, e ele ia embora… Foi aí que percebi que gostava mesmo dele. Implorei-lhe que não fosse, disse-lhe que precisava dele cá, ao meu lado, e desatei a chorar. Ele ficou completamente perdido quando me viu tão desesperada, abraçou-me e vendo o estado em que eu estava, prometeu-me que não ia.
            Passado um ou dois meses, numa saída de amigos, ele levou-me a casa, e beijou-me. Aí percebi o porquê de ele ter ficado em Portugal. Começamos então a namorar e agora vivemos juntos.
            No verão de dois mil e sete, quando fui de férias com ele, com a minha irmã e com o namorado dela, o Filipe, reparei que tinha um seio bastante inchado e os meus mamilos estavam um pouco diferentes. Andava também com algumas dores nas costas,
e fui pesquisar sobre isso na internet. O que encontrei deixou-me muito assustada, pois pelos sintomas, podia ser cancro da mama, e fui imediatamente ao hospital com o Rodrigo.
            Falei desses sintomas ao doutor Vicente, que é oncologista, e ele fez-me uma mamografia. Quando me disse que tinha cancro da mama num estado já bastante avançado, o meu coração parou. O Rodrigo olhou para mim, completamente perdido, sem reação. Desatamos a chorar. Todos os momentos mais felizes da minha vida me passaram pela cabeça naquele momento, e só pensava que ia morrer e que não podia concretizar os meus sonhos.
            Comecei então a quimioterapia. O cabelo começou a cair, estava sempre com náuseas e ganhei anemia. Sentia-me muito fraca, e cheguei mesmo a pedir para morrer, para tudo acabar ali. Mas porquê, se ainda tinha hipótese de viver? Porque é que quereria morrer se ainda não tinha concretizado os meus sonhos? Porquê ir embora se isso magoaria as pessoas que gostam realmente de mim?
            Todos os dias os meus pais, os meus irmãos, o meu namorado e a Rita, a minha melhor amiga, me iam ver. Levavam-me flores, fotografias e outros mimos. Davam-me força para acreditar que tudo ia ficar bem, e foi a isso que me prendi durante todo aquele tempo.
            Comecei a melhorar, o cabelo voltou a nascer, as náuseas desapareceram e os glóbulos vermelhos voltaram ao número normal. Fui para casa e a minha mãe ficava lá comigo quando o Rodrigo ia trabalhar.
            Continuei a ir às consultas do doutor Vicente, e já passaram sete anos desde que me foi diagnosticado o cancro. Os meses que passei em tratamento foram os mais difíceis da minha vida, e se não tivesse tido tanto apoio, já tinha desistido.
            Tenho agora um filho, o André, com um aninho, e posso dizer que venci o cancro. Foi a melhor notícia que recebi desde que me foi diagnosticada esta doença, que afeta cerca de onze mulheres por dia, em que apenas sete sobrevivem. Sinto-me afortunada por ser uma delas, e considero-me uma verdadeira lutadora, uma vencedora. A cura desta doença não está na quimioterapia ou na radioterapia, está em nós, na nossa fé, na nossa força e no apoio que as pessoas mais próximas de nós nos dão.
            Em todas as situações da vida, é tudo uma questão de fé.

 


(Carolina Vale)

terça-feira, 1 de abril de 2014

Tina Turner em Porto d'Ave


Uma Lenda do Rock na Romaria de Porto d'Ave 2014


No início não passava de um ideia louca e não eram raras as vozes que diziam ser impossível, mas o sonho foi tomando conta dos mais insistentes, mantendo-se no maior segredo, e agora já pode ser tornado público porque é mesmo uma certeza que nos enche de alegria e orgulho a todos: No palco da Romaria de Porto d'Ave 2014 vai estar uma lenda da música chamada Tina Turner.

Tina Turner vive na Suiça há quinze anos, onde tem na sua mansão três funcionários portugueses, sendo a cozinheira e o motorista, um casal de Porto d'Ave, o senhor Mário Rodrigues e a dona Carmo Silva, pais do nosso amigo Jaime Rodrigues que vai dar o nó precisamente no fim de semana da Romaria, casamento  esse, onde na lista de convidados constam os nome de Tina Turner e do seu marido Erwin Bach, e após tantas descrições do Santuário e da Romaria de N. S. do Porto d'Ave que a diva escutava pela voz destes nossos conterrâneos, acabou por ceder às insistências, e aproveitou a ocasião para vir com as “suas pernas” e ver com os seus próprios olhos o que tanto falavam os seus colaboradores por quem tem enorme respeito e amizade.

Esta Diva, que esteve no auge nos anos 80 e 90, viveu uma adolescência difícil e teve que cantar em boates e cabarés de categoria duvidosa para sobreviver, mas o seu talento e a sua energia transformaram-na numa lenda da música com perto de 200 milhões de discos vendidos em todo mundo. Actualmente conta 74 anos de idade, mas mantém a mesma energia, as mesmas pernas e o mesmo timbre de voz inconfundível que conhecemos nas últimas décadas do sec. XX. 

Segundo a própria, recorda com saudade o concerto que deu em Alvalade há mais de vinte anos, considerando-o como um dos momentos mais gratificantes da sua carreira, e também este sentimento terá contribuído para a decisão de aceder positivamente ao convite para vir novamente a Portugal, desta vez a Porto d'Ave!!! E nós cá estaremos para a aplaudir. Bem vinda a Porto d'Ave.