segunda-feira, 12 de junho de 2017

Filipe Gonça


  Há dois anos o Porto d'Ave descia de divisão. Uma época em que falhou e, quando o Porto d'Ave falha, falhamos todos.
  No ano seguinte era necessário unir a 'Família' e esse período coincidiu com a mudança de direcção.
 Tuxa era, indiscutivelmente, o homem com o perfil que encaixava nessa necessidade. Quando soou o seu nome não tive dúvidas que era o presidente que o Porto d'Ave precisava naquele momento; foi com pena minha não o poder acompanhar, mas coincidia com um período em que, por motivos profissionais, não podia dar o contributo que me exijo quando assumo um compromisso dessa responsabilidade.
  Depois da escolha da direcção era necessário construir uma equipa motivada, mas não era muito provável que jogadores com a marca de campeonatos nacionais e com o sonho, sustentado na sua qualidade, de escalar mais alto, aceitassem voltar a jogar em campos pelados contra clubes onde o futebol ainda não saiu da forma mais artesanal, se é que me faço entender!
  Ficaram todos que foram convidados a renovar; tinham acabado de descer e sentiram a responsabilidade de voltar a trazer o Porto d'Ave para o escalão mais alto do futebol distrital. E fizeram-no de uma forma tão nobre, tão digna, mas sobretudo tão competente e brilhante, que por vezes até fico a pensar que aquela descida de divisão não nos diminuiu, mas pelo contrário, fez com que o Porto d'Ave regressasse ainda maior.
  Mas o verdadeiro motivo deste 'desabafo' é o que se segue:

  Filipe Gonça.


  Filipe Gonça foi o nome escolhido para agarrar o leme nesta viagem que hoje ninguém tem dúvidas que o navio vai seguro. A forma como usou a camisola do Porto d'Ave enquanto jogador merece-me a maior reverência. Mas não foi apenas dentro das quatro linhas que foi grande; respeitou o clube em todas as frentes, colegas, dirigentes, sócios e adeptos (ofereceu-me uma camisola do Porto d'Ave depois da derrota mais pesada em toda a história do clube, em Dume naquele dia 15 de Março de 2015 em que sofremos sete golos, e a forma como o fez traduz a sua maneira alargada de ver o Porto d'Ave que vai muito para além do rectângulo de jogo). Por tudo isso e muito mais, Filipe Gonça é alguém que eu fico feliz por ver nesse lugar.
  Mas, quando se fala do Porto d'Ave, quando é para decidir assuntos do Porto d'Ave, eu coloco em primeiro lugar o Porto d'Ave e apenas depois vem os amigos ou a família. E aqui, quando soou o seu nome, a sensação foi bem diferente da que tive quando soou o nome do presidente. Confesso que tive dúvidas, que tive medo! Filipe Gonça nunca tinha sido treinador e o Porto d'Ave tinha que subir de divisão, num campeonato que contava com várias equipas com o mesmo objectivo. Para subir era necessário ganhar os jogos quase todos e perder quase nenhum e Filipe Gonça era um nome muito arriscado! Mas a direcção arriscou e em tão boa hora o fez.
  Nunca me senti tão feliz por não ter razão!
  Não deve ser fácil liderar jogadores que foram colegas de equipa: Filipe Gonça conseguiu.
  Não deve ser fácil ser treinador inexperiente num projecto tão exigente como o 'ter' que subir de divisão: Filipe Gonça conseguiu.
  Não deve ser fácil ser treinador há apenas um ano, chegar ao escalão mais alto do futebol distrital, onde moram outros treinadores há vários campeonatos, e mesmo depois dum arranque negativo conseguir recuperar para a primeira metade da tabela chegando mesmo a espreitar o topo: Filipe Gonça conseguiu.
  Não deve ser fácil ser treinador num clube que sonha há quatro décadas com uma presença na final da taça da Associação de Futebol de Braga, com a missão complicada nesse percurso de ter que vencer no terreno do campeão da divisão nas meias finais: Filipe Gonça conseguiu.
  Obviamente que não conseguiu sozinho, e o mérito é de todos, mas dos jogadores eu nunca duvidei!
  Quero aqui dizer que as dúvidas de há dois anos desabafei-as apenas com uma ou duas pessoas, até porque eu queria muito estar errado, eu queria que desse certo pelo Porto d'Ave e também pelo treinador. Nunca me senti tão feliz por estar errado, porque esta época memorável que terminou sábado em Barcelos tem vários nomes, mas se tivesse que destacar um, seria aquele de quem eu teria dito que é muito arriscado e aconselharia alguém mais experiente caso me tivessem pedido opinião; esse nome é Filipe Gonça.

Obrigado meu amigo.


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