domingo, 27 de novembro de 2016

G. D. Porto d'Ave - 38º Aniversário



DEUS quer, o Homem sonha, a Obra nasce.


     Aos 27 de Novembro de 1978, o Grupo Desportivo de Porto D’Ave torna-se o mais jovem clube da Associação de Futebol de Braga. Este foi um grande passo na vida da colectividade, mas não foi aqui que tudo começou. O Porto D’Ave nesta altura já era grande. Antes desta data, ninguém da nossa freguesia ficava em casa nos dias de jogo nos torneios que se realizavam em Castelões e Brunhais. Lembro-me de grandes tardes e manhãs de futebol nessa saudosa década de setenta como se fossem ontem. Na abertura dum torneio contra uma “potência” do futebol daquela altura, o Serafão, em que vencemos por 5 a 0. Também num jogo em Castelões contra o Gonça, quando antes do intervalo o resultado já era favorável aos “nossos” por 2 a 0, com ambos os golos apontados por Tuxa (da D. Laura) e de repente um “tornado” protagonizado pelos adeptos de ambas equipas impediu que o jogo chegasse ao fim. (também aqui ninguém nos vencia!!!). Aquela final contra o Travassos, em que vencemos por 2 a 1, sendo este o único golo sofrido em toda a competição. O Guardião quase imbatível desse torneio era o senhor Carlos Rufino, naquela altura “Caló”.

    Sempre que olho para a taça de campeões desse torneio, recordo todas as emoções que sentia. Haviam ainda poucos carros na freguesia, mas para acompanhar o Porto d'Ave as caravanas eram sempre enormes. As camionetas também eram necessárias para levar todos os adeptos e os que iam na carroça eram sempre os mais ruidosos. Havia duas bandeiras enormes com quadrados pequenos e mal feitos que estavam sempre presentes e o apoio à equipa era feito a cantar as lindas canções da nossa terra. O Porto D’Ave não era ainda federado, mas já era muito grande e eu, ainda criança, olhava para os rapazes das outras freguesias cheio de vaidade, pois eu era de Porto d’Ave e eles não. Já se cultivava o orgulho Portodavense.

     Neste tempo, contavam-se histórias do passado que me fascinavam e me fazia compreender que a grandiosidade do Porto d’Ave já vinha de longe. Falavam de jogos em que iam a pé e descalços, e só calçavam as botas, quem as tinha, para jogar. O resultado era sempre o mesmo; os “nossos” ganhavam. Às vezes também perdiam, mas esses episódios contavam-se em dois segundos, as vitórias é que importava recordar repetidamente sem que nada ficasse esquecido.

     Enquanto escrevo estas linhas, recordo imagens de homens que já não estão cá a festejar os golos e as vitórias. Quando a taça era nossa, e era quase sempre, enchia-se de champanhe e todos bebiam por ela. A festa durava até ao dia seguinte. Apesar de se repetirem em cada torneio, aqueles momentos eram únicos. Enquanto a festa durava, estavam esquecidas as amarguras da vida que afectavam grande parte da população, pois eram tempos difíceis.

     Uma das razões que tornavam o Porto D’Ave mais vencedor que os adversários, era o facto de nessa altura já treinar todos dias, pois não havia um final de tarde em que a bola não saltasse no terreiro dos divertimentos até ao anoitecer. Todos estavam convocados, e depois dum dia de trabalho árduo, a ninguém faltava energia para dar o litro atrás da bola.

     E foi graças a todo este entusiasmo que um grupo de homens da nossa terra reuniu para passar à fase seguinte, e assim nasceu o Grupo Desportivo de Porto D’Ave. Presto a minha homenagem e deixo aqui os meus agradecimentos enquanto Portodavense, a estes homens e muitos outros que, sem que o seu nome saísse do anonimato, foram imprescindíveis na criação do nosso clube. Penso que todos estes homens, há 
quase quarentaanos, já sabiam que estavam a criar este grande clube que tanto nos orgulha. Foram ambiciosos na aquisição dos terrenos que com dificuldade lá se foram pagando e que tão importantes foram para que se construíssem aquelas magnificas instalações. Os primeiros anos foram os mais difíceis, mas a união era tal que todas as barreiras foram ultrapassadas.

     Os jogadores do Porto D’Ave passaram a ser os ídolos das crianças da escola. No recreio, quando jogávamos à bola, marcávamos golos à Guilherme e à Gito, dávamos cabeçadas à Quim Moreira, fazíamos fintas 
à Pião, carrinhos à Firo, passes à Santos, caneladas à Araújo, defesas à Chico Fininho, etc. etc..

     Há uma história que se passou na minha sala de aula que demonstra o significado que o Porto D’Ave tinha para as crianças. Um dia a professora D. Graça mandou-nos fazer uma redacção sobre o que tínhamos feito no último Domingo. Cerca de metade da turma, sobretudo os rapazes, escreveu sobre a difícil vitória no complicado campo do Cav
ez, em que houve invasão de campo quando o árbitro validou um golo de Nano, um chapelão ao guardião adversário. O resultado foi 1 a 2 a nosso favor. A professora ao corrigir os nossos trabalhos, não acreditava que tantos miúdos de nove anos tivessem acompanhado o nosso clube tão longe e achou que tínhamos copiado o tema. Com os desenhos e os trabalhos manuais passava-se a mesma coisa; tanto a tinta da china, como em barro, nos têxteis ou em metal, tudo dava para fazer o emblema do Porto D’Ave.

     Nos primeiros anos a equipa de futebol sénior era a única a competir em toda a colectividade, mas com o passar dos anos foram-se reunindo esforços para que fosse possível ter escalões de formação, começando por uma camada de Juniores. Como os resultados eram positivos, outros escalões se foram acrescentando ao ponto a que chegamos há mais de uma dúzia de anos em que nos orgulhamos de ter todos escalões de formação onde também já escrevemos muitas páginas douradas.

     Hoje, com quase duas centenas de jogadores de várias idades, o nosso clube já não é só de Porto D’Ave, pois são muitos os sócios e adeptos das freguesias vizinhas. Possuímos um dos melhores parques desportivos de todos os clubes do futebol distrital bracarense, pois não houve até hoje uma direcção que não o melhorasse. Fomos brindados recentemente com o tão desejado “tapete verde”, mas sonhamos ainda com um segundo campo e um pavilhão gimnodesportivo para continuarmos a somar êxitos nesta caminhada. Sem grandes saltos, passo a passo, o Porto d’Ave nunca parou de crescer, tanto no património como no plano desportivo, e assim irá continuar.

     A grandiosidade do Grupo Desportivo de Porto d’Ave é hoje reconhecida por todos e não nos intimidamos quando temos que ombrear com clubes que representam nomes de cidades e sedes de concelho. Isto só é possível, porque a nossa camisola tornou-se de tal forma honrada, que muitos jogadores preferem vesti-la abdicando por vezes de avultados salários oferecidos por clubes que outrora tiveram nomes mais sonantes que o nosso. Também a nossa massa associativa tem características ímpares no apoio à equipa e, quando há mobilização para jogos mais importantes, os adeptos do Porto d’Ave tornam-se os melhores do mundo.

     O Porto d’Ave nasceu para ser grande, e já muito foi feito, mas há ainda muito a fazer para se tornar ainda maior e todos temos o dever de continuar o trabalho iniciado pelos nossos pais e avós, que criaram este clube e o ajudaram a crescer. A todos estes homens que deram os primeiros e mais difíceis passos, é nosso dever demonstrar gratidão, mas principalmente aqueles de quem o nome não consta em nenhuma acta e muito menos numa lápide. Que todos que fazem parte do nosso emblema e os que a ele se juntarem no futuro, saibam que em cada palmo daquele recinto estão lágrimas e suor de homens, alguns de idade bastante avançada e debilidade física, mas quando do Porto d'Ave se tratava, conseguiam inventar forças para trabalhar com o intuito apenas de ver o nome do clube do seu coração cada vez maior. Sem esses, o Porto d'Ave seria muito mais pobre, e a maior homenagem que lhes podemos fazer, é seguir o seu exemplo e nunca deixar de os recordar. A eles dedico estas palavras.
(Tó de Porto d'Ave)

   

"Enquanto os rios corram, os montes façam sombra e no céu haja estrelas, deve durar a memória do bem recebido na mente do homem grato."

(Virgílio)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Real Confraria N. S. Porto d'Ave vs C. M. de Braga

Real Confraria N. S. Porto d'Ave vence duelo que se arrasta há quase três séculos contra Câmara Municipal de Braga.

Foram necessários mais de dois séculos e meio para ser encontrada a resolução do litígio que opunha a Real Confraria de Nossa Senhora do Porto d'Ave e a Câmara Municipal de Braga.
Foi em meados do século XVIII que a maior autarquia do Minho contraiu uma dívida que terá, finalmente, que liquidar.

Era normal, nesta época, que instituições públicas recorressem a créditos com juros reduzidos cedidos pelas irmandades religiosas. Desta forma, a câmara municipal de Braga bateu à porta da Real Confraria de Nossa senhora do Porto d'Ave para conseguir financiamento para a construção do edifício que ainda hoje é o local onde são tomadas quase todas as decisões daquele concelho.
O empréstimo foi concedido e desde essa data, Portugal viveu algumas revoluções com modelos de estado a ser derrubados para dar lugar a outros, e toda a confusão gerada ia dando jeito aos devedores que assim ganhavam tempo na esperança que esse mesmo tempo se encarregasse de apagar as dívidas da memória.
E se na “Cidade dos Arcebispos” se tentava empurrar o assunto para o fundo da gaveta, já naquele santuário Mariano que desponta sublimemente na margem direita do rio Ave, é tradição honrar-se os compromissos sejam eles favoráveis ou não, e nunca a quantia de que é credora foi esquecida. Era um duelo desigual e o assunto andou num complexo jogo jurídico até que, depois de empurra para cá e empurra para lá, a batalha chegou ao fim e, tal como no Livro de Samuel no Antigo Testamento, também aqui Golias acabou derrotado perante um adversário que julgou ainda mais pequeno que David quando o veredito final, com a maior clareza, condenou a autarquia da capital do Minho ao pagamento do montante cedido na época e, como os documentos do contrato confirmam, será acrescido da taxa de juro de 2% ao ano. .

 Neste momento não nos foram fornecidos números e muito menos o montante que fica após ser transformado no câmbio actual, mas se avaliarmos o edifício em questão situamo-nos aproximadamente na quantia que podemos estar a falar.
 Na verdade, não se pode dizer que foi feita justiça, pois vem tardia e o nosso santuário já teve que se privar de parte do seu património para financiar a preservação de vários monumentos. Seja como for, mais vale tarde que nunca.
  Perante a impossibilidade de recorrer desta decisão, a câmara municipal de Braga, em jeito de vingança, decidiu antecipar o a Noite Branca para o final de semana em que é realizada a Romaria de Porto d'Ave e não se irá privar de gastar centenas de milhar de euros, uma avultada quantia de dinheiro que não fica bem a quem devia preocupar-se primeiro em cumprir as suas obrigações. Uma atitude mesquinha e deselegante da parte dos responsáveis por este evento que não deviam acolher esta decisão como uma derrota, mas sim como um acto de justiça. 
Quanto à Romaria de Porto d'Ave, irá ser gasto apenas o dinheiro que é oferecido para esse fim e será como sempre foi: durante nove dias e nove noites terminando no primeiro Domingo de Setembro e sem dúvida alguma que continuará a ser uma das maiores Romarias de Portugal.











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