DEUS
quer, o Homem sonha, a Obra nasce
Aos
27 de Novembro de 1978, o Grupo Desportivo de Porto D’Ave torna-se
o mais jovem clube da Associação de Futebol de Braga. Este foi um grande passo na vida da colectividade,
mas não foi aqui que tudo começou. O Porto D’Ave
nesta altura já era grande. Antes desta data, ninguém
da nossa freguesia ficava em casa nos dias de jogo nos torneios que
se realizavam em Castelões e Brunhais. Lembro-me de grandes
tardes e manhãs de futebol nessa saudosa década de
setenta como se fossem ontem. Na abertura dum torneio contra uma
“potência” do futebol daquela altura, o Serafão, em
que vencemos por 5 a 0. Também num jogo em Castelões
contra o Gonça, quando antes do intervalo o resultado já
era favorável aos “nossos” por 2 a 0, com ambos os golos
apontados por Tuxa (da D. Laura) e de repente um “tornado”
protagonizado pelos adeptos de ambas equipas impediu que o jogo
chegasse ao fim. (também aqui eramos os melhores!!!). Aquela
final contra o Travassos, em que vencemos por 2 a 1, sendo este o
único golo sofrido em toda a competição. O
Guardião quase imbatível desse torneio era o senhor
Carlos Rufino, naquela altura “Caló”. Sempre que olho para
a taça de campeões desse torneio, recordo todas as
emoções que sentia. Haviam ainda poucos carros na
freguesia, mas para acompanhar o Porto d'Ave as caravanas eram sempre
enormes. As camionetas também eram necessárias para
levar todos os adeptos e os que iam na carroça eram sempre os
mais ruidosos. Haviam duas bandeiras enormes com quadrados pequenos e
mal feitos que estavam sempre presentes, e o apoio à equipa
era feito a cantar as lindas canções da nossa terra. O
Porto D’Ave não era ainda federado, mas já era muito
grande, e eu, ainda criança, olhava para os rapazes das outras
freguesias cheio de vaidade, pois eu era de Porto D’Ave e eles não.
Já se cultivava o orgulho Portodavense.
Neste
tempo, contavam-se histórias do passado que me fascinavam e me
fazia compreender que a grandiosidade do Porto d’Ave já
vinha de longe. Falavam de jogos em que iam a pé e descalços,
e só calçavam as botas, quem as tivesse, para jogar. O
resultado era sempre o mesmo, os “nossos” ganhavam. Às
vezes também perdiam, mas esses episódios contavam-se
em dois segundos, as vitórias é que importava recordar
repetidamente sem que nada ficasse esquecido.
Enquanto
escrevo estas linhas, recordo imagens de homens que já não
estão cá a festejar os golos e as vitórias.
Quando a taça era nossa, e era quase sempre, enchia-se de
champanhe e todos bebiam por ela. A festa durava até ao dia
seguinte. Apesar de se repetirem em cada torneio, aqueles momentos
eram únicos. Enquanto a festa durava, estavam esquecidas as
amarguras da vida que afectavam grande parte da população,
pois eram tempos difíceis.
Uma
das razões que tornavam o Porto D’Ave mais vencedor que os
adversários, era o facto de nessa altura já treinar
todos dias, pois não havia um final de tarde em que a bola não
saltasse no terreiro até ao anoitecer. Todos estavam
convocados, e depois dum dia de trabalho árduo, a ninguém
faltava energia para dar o litro atrás da bola.
E
foi graças a todo este entusiasmo que um grupo de homens da
nossa terra reuniu para passar à fase seguinte, e assim nasceu
o Grupo Desportivo de Porto D’Ave. Presto a minha homenagem e deixo
aqui os meus agradecimentos enquanto Portodavense, a estes homens e
muitos outros, que sem que o seu nome saísse do anonimato,
foram imprescindíveis na criação do nosso clube.
Penso que estes homens há mais de trinta anos, já
sabiam que estavam a criar este grande clube. Foram ambiciosos na
aquisição dos terrenos que com dificuldade lá se
foram pagando e que tão importantes foram para que se
construíssem aquelas magnificas instalações. Os
primeiros anos foram os mais difíceis, mas a união era
tal que todas as barreiras foram ultrapassadas.
Os
jogadores do Porto D’Ave passaram a ser os ídolos das
crianças da escola. No recreio quando jogávamos à
bola, marcávamos golos à Guilherme e à Gito,
dávamos cabeçadas à Quim Moreira, fazíamos
fintas á Peão, carrinhos à Firo, passes à
Santos, caneladas à Araújo, defesas à Chico
Fininho, etc.etc..
Há
uma história que se passou na minha sala de aula que demonstra
o significado que o Porto D’Ave tinha para as crianças. Um
dia a professora D. Graça mandou-nos fazer uma redacção
sobre o que tínhamos feito no último Domingo. Cerca de
metade da turma escreveu sobre a difícil vitória no
complicado campo do Cavêz ,em que houve invasão de campo
quando o árbitro validou um golo de Nano, um chapelão
ao guardião adversário. O resultado foi 1 a 2 a nosso
favor. A professora quando corrigiu os nossos trabalhos, não
acreditava que tantos miúdos de nove anos tivessem acompanhado
o nosso clube tão longe, e achou que tínhamos copiado o
tema. Com os desenhos e os trabalhos manuais passava-se a mesma
coisa. Tanto a tinta da china, como em barro, nos têxteis ou em
metal, tudo dava para fazer o emblema do Porto D’Ave.
Nos
primeiros anos a equipa de futebol sénior era a única a
competir em toda a colectividade, mas com o passar dos anos foram-se
reunindo esforços para que fosse possível ter escalões
de formação, começando por uma camada de
Juniores. Como os resultados eram positivos, outros escalões
se foram acrescentando ao ponto a que chegamos há mais de uma
dúzia de anos em que nos orgulhamos de ter todos escalões
de formação, onde já também já
escrevemos muitas páginas douradas na história do nosso
clube.
Hoje,
com quase duas centenas de jogadores de várias idades, o nosso
clube já não é só de Porto D’Ave, pois
são muitos os sócios e adeptos das freguesias vizinhas.
Possuímos um dos melhores parques desportivos de todos os
clubes do futebol distrital bracarense, pois não houve até
hoje uma direcção que não o melhorasse.
Avizinha-se agora o tão desejado “tapete verde”,
necessidade que também sonhamos ver resolvida para que a
desvantagem em relação aos nossos adversários
não seja tão acentuada. Sem grandes saltos, o Porto
d’Ave nunca parou de crescer, tanto no património como no
plano desportivo e assim irá continuar.
A
grandiosidade do Grupo Desportivo de Porto d’Ave é hoje
reconhecida por todos, pois temos ombreado com clubes que representam
cidades e sedes de concelho. Isto só é possível,
porque a nossa camisola tornou-se de tal forma honrada, que muitos
jogadores preferem vesti-la abdicando por vezes de avultados salários oferecidos por clubes que outrora tiveram nomes mais sonantes que o nosso.
Também a nossa massa associativa tem características
ímpares no apoio à equipa, e quando há
mobilização para jogos mais importantes, os adeptos do
Porto d’Ave tornam-se os melhores do mundo.
O
Porto d’Ave nasceu para ser grande, e já muito foi feito, mas há
ainda muito a fazer para se tornar ainda maior, e todos temos o dever de continuar o trabalho iniciado pelos nossos pais e avós,
que criaram este clube e o ajudaram a crescer. E a todos temos que demonstrar gratidão, mas
principalmente aqueles de quem o nome não consta em nenhuma
acta e muito menos numa lápide. Que todos que fazem parte do
nosso emblema e os que a ele se juntarem no futuro, saibam que em
cada palmo daquele recinto estão lágrimas e suor de
homens, alguns de idade bastante avançada e debilidade física,
mas quando do Porto d'Ave se tratava, conseguiam inventar forças
para trabalhar com o intuito apenas de ver o nome do clube do seu
coração cada vez maior. Sem esses, o Porto d'Ave seria
muito mais pobre, e a maior homenagem que lhes podemos fazer, é
seguir o seu exemplo, e nunca deixar de os recordar. A eles dedico
estas palavras.
(Tó de Porto d'Ave)
"Enquanto os rios corram, os montes façam sombra e no céu haja estrelas, deve durar a memória do bem recebido na mente do homem grato."
(Virgílio)


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