domingo, 27 de novembro de 2011

33º Aniversário G. D. Porto d'Ave



DEUS quer, o Homem sonha, a Obra nasce

Aos 27 de Novembro de 1978, o Grupo Desportivo de Porto D’Ave torna-se o mais jovem clube desportivo inscrito na Associação de Futebol de Braga. Este foi um grande passo na vida da colectividade, mas não foi aqui que tudo começou. O Porto D’Ave nesta altura já era grande. Antes desta data, ninguém da nossa freguesia ficava em casa nos dias de jogo dos torneios que se realizavam em Castelões e Brunhais. Lembro-me de grandes tardes e manhãs de futebol nessa saudosa década de setenta como se fossem ontem. Na abertura dum torneio contra uma “potência” do futebol daquela altura, o Serafão, em que vencemos por 5 a 0. Também num jogo em Castelões contra o Gonça, quando antes do intervalo o resultado já era favorável aos “nossos” por 2 a 0, com ambos os golos apontados por Tuxa (da D. Laura) e de repente um “tsunami” protagonizado pelos adeptos de ambas equipas impediu que o jogo chegasse ao fim. Aquela final contra o Travassos, em que vencemos por 2 a 1, sendo este o único golo sofrido em toda a competição. O Guardião quase imbatível desse torneio era o senhor Carlos Rufino, naquela altura “Caló”. Sempre que olho para a taça de campeões desse torneio recordo todas as emoções que sentia. Haviam ainda poucos carros na freguesia, mas para acompanhar o Porto d'Ave as caravanas eram sempre enormes. As camionetas também eram necessárias para levar todos os adeptos e os que iam na carroça eram sempre os mais ruidosos. Haviam duas bandeiras enormes com quadrados pequenos e mal feitos que estavam sempre presentes, e o apoio à equipa era feito a cantar as lindas canções da nossa terra. O Porto D’Ave não era ainda federado, mas já era muito grande, e eu ainda criança olhava para os rapazes das outras freguesias cheio de vaidade, pois eu era de Porto D’Ave e eles não. Já se cultivava o orgulho Portodavense.

Neste tempo, contavam-se histórias do passado que me fascinavam e me fazia compreender que a grandiosidade do Porto d’Ave já vinha de longe. Falavam de jogos em que iam a pé e descalços, e só calçavam as botas “quem as tivesse” para jogar. O resultado era sempre o mesmo, os “nossos” ganhavam. Às vezes também perdiam, mas esses episódios contavam-se em dois segundos, as vitórias é que importava recordar repetidamente sem que nada ficasse esquecido.

Enquanto escrevo estas linhas, recordo imagens de homens que já não estão cá, a festejar os golos e as vitórias. Quando a taça era nossa, e era quase sempre, enchia-se de champanhe e todos bebiam por ela. A festa durava até ao dia seguinte. Apesar de se repetirem em cada torneio, aqueles momentos eram únicos. Enquanto a festa durava estavam esquecidas as amarguras da vida que afectavam grande parte da população, pois eram tempos difíceis.

Uma das razões que tornavam o Porto D’Ave mais vencedor que os adversários, era o facto de nessa altura já treinar todos dias, pois não havia um final de tarde em que a bola não saltasse no terreiro até ao anoitecer. Todos estavam convocados, e depois dum dia de trabalho árduo, a ninguém faltava energia para dar o litro atrás da bola.

E foi graças a todo este entusiasmo que um grupo de homens da nossa terra reuniu para passar à fase seguinte, e assim nasceu o Grupo Desportivo de Porto D’Ave. Presto a minha homenagem e deixo aqui os meus agradecimentos enquanto Portodavense a estes homens e muitos outros, que sem que o seu nome saísse do anonimato, foram imprescindíveis na criação do nosso clube. Penso que estes homens, há mais de trinta anos, já sabiam que estavam a criar este grande clube. Foram ambiciosos na aquisição dos terrenos que com dificuldade lá se foram pagando, e que tão importantes foram para que se construíssem aquelas magnificas instalações. Os primeiros anos foram os mais difíceis, mas a união era tal que todas as barreiras foram ultrapassadas.

Os jogadores do Porto D’Ave passaram a ser os ídolos das crianças da escola. No recreio quando jogávamos à bola, marcávamos golos à Guilherme e à Gito, dávamos cabeçadas à Quim Moreira, fazíamos fintas á Peão, carrinhos à Firo, passes à Santos, caneladas à Araújo, defesas á Chico Fininho, etc.etc..

Há uma história que se passou na minha sala de aula que demonstra o significado que o Porto D’Ave tinha para as crianças. Um dia a professora D. Graça mandou-nos fazer uma redacção sobre o que tínhamos feito no último Domingo. Cerca de metade da turma escreveu sobre a difícil vitória no complicado campo do Cavêz ,em que houve invasão de campo quando o árbitro validou um golo de Nano, um chapelão ao guardião adversário. O resultado foi 1 a 2 a nosso favor. A professora quando corrigiu os nossos trabalhos não acreditava que tantos miúdos de nove anos tivessem acompanhado nosso clube tão longe, e achou que tínhamos copiado o tema. Com os desenhos e os trabalhos manuais passava-se a mesma coisa. Tanto a tinta da china, como em barro, nos têxteis ou em metal, tudo dava para fazer o emblema do Porto D’Ave.

Nos primeiros anos a equipa de futebol sénior era a única a competir em toda a colectividade, mas com o passar dos anos foram-se reunindo esforços para que fosse possível ter escalões de formação, começando por uma camada de Juniores. Como os resultados eram positivos, outros escalões se foram acrescentando ao ponto a que chegamos há mais de dez anos em que nos orgulhamos de ter quase todos escalões de formação, onde já também já escrevemos muitas páginas douradas na história do nosso clube.

Hoje, com quase duas centenas de jogadores de várias idades, o nosso clube já não é só de Porto D’Ave, pois são muitos os sócios e adeptos das freguesias vizinhas. Possuímos um dos melhores parques desportivos de todos os clubes do futebol distrital bracarense, pois não houve até hoje uma direcção que não o melhorasse, e avizinha-se o tão desejado “tapete verde”, necessidade que também sonhamos ver resolvida para que a desvantagem em relação aos nossos adversários não seja tão acentuada. Sem grandes saltos, o Porto d’Ave nunca parou de crescer, tanto no património como no plano desportivo e assim irá continuar.

A grandiosidade do Grupo Desportivo de Porto d’Ave é hoje reconhecida por todos, pois temos ombreado com clubes que representam cidades e sedes de concelho. Isto só é possível porque a nossa camisola tornou-se de tal forma honrada, que muitos jogadores preferem vesti-la em troca de avultados salários pagos por clubes que outrora tiveram nomes mais sonantes que o nosso. A massa associativa do nosso clube tem características ímpares no apoio aos seus jogadores, e quando há mobilização para jogos mais importantes, os adeptos do Porto d’Ave tornam-se os melhores do mundo.

Já muito foi feito, mas há ainda muito a fazer no nosso clube. O Porto d’Ave nasceu para ser grande, e a forma de encontrar forças para continuar o trabalho iniciado pelos nossos pais e avós, que criaram este clube e o ajudaram a crescer, passa por seguir o seu exemplo, principalmente dos que nunca se colocaram na primeira fila. A todos temos que demonstrar gratidão, mas principalmente a esses de quem o nome não consta em nenhuma acta e muito menos numa lápide.

Que todos que fazem parte do nosso emblema, e os que a ele se juntarem no futuro, saibam que em cada palmo daquele recinto estão lágrimas de suor de homens, alguns de idade bastante avançada e debilidade física, mas quando do Porto d'Ave se tratava, conseguiam inventar forças para trabalhar com o intuito apenas de ver o nome do clube do seu coração cada vez maior. Sem esses, o Porto d'Ave seria muito mais pobre, e a maior homenagem que lhes podemos fazer, é seguir o seu exemplo, e nunca deixar de os recordar. A eles dedico estas palavras.

(Tília Maior)